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J. R. Araújo
A Natureza presenteia nossos sentidos com incontáveis espetáculos de sublime beleza visual, agradáveis sutilezas dos sons, a inebriante variedade de aromas e a delícia paradisíaca dos sabores. São tantos, tão variados os estímulos que Ela nos oferece aos sentidos que seria difícil enumerá-los, todos. A todos esses estímulos, sabemos bem valorizá-los, pelo prazer que nos oferecem ou pela raridade em encontrá-los. Entre os estimulantes de nosso paladar, o mel sempre foi bastante apreciado, a ponto de chamá-lo "ouro líquido" em referência ao fascínio que nos desperta o precioso mineral. Desde a Antiguidade, a produção desse néctar dos deuses intriga e aguça a nossa curiosidade sobre as responsáveis por essa delícia, as maravilhosas abelhas. As abelhas são insetos sociáveis, aparentadas das vespas e formigas. Têm o corpo formado por cabeça, tórax e abdômen. Na cabeça estão os olhos, as antenas e a parte bucal, com mandíbulas e uma tromba (probócides) que utilizam para sugar o néctar das flores. O tóraz é formado por três segmentos anelados, dispondo de dois pares de asas na parte superior e três pares de patas dispostos na lateral. Ao tórax, liga-se o abdômen formado por segmentos igualmente anelados, onde situam-se os órgãos excretores, os aparelhos reprodutores e, na extremidade, o ferrão. Entre os gêneros e espécies, a Apis mellifica (ou mellifera) ligustica (italiana) é a mais apreciada pela alta produção de mel, por ser bastante dócil e de fácil manejo. Muito conhecida também ficou a Apis mellifica adansonii (africana) por sua agressividade. Atualmente existe como africanizada, após sucessivos cruzamentos naturais com a abelha italiana, no que resultou num abrandamento dessa indesejável característica. Existem ainda as abelhas desprovidas de ferrão, entre as quais estão as dos gêneros Trigona, Melipona e Euglossa, com excelentes espécies na produção de mel. As abelhas e seu líquido dourado sempre foram para nós um doce mistério. Muito além de sentir o sabor do mel, sempre quisemos entender os segredos de sua confecção e por nunca conseguir produzi-lo ou imitá-lo, enchemo-nos de admiração e respeito por tão habilidosas artífices; suas vidas, seus trabalhos, seus segredos e a organização de sua casa-cidade, a colméia.
A Colméia
O local mais natural em que as abelhas constroem sua casa é na parte oca de um tronco de árvore ou num tronco oco, caído ao chão. Entre as fendas de rochedos, em pequenas cavernas ou mesmo na forquilha de galhos das árvores ou arvoredos. Uma colméia pode localizar-se em diferentes apoios, diferentes locais, mas sua estrutura interna obedece sempre aos mesmos padrões de construção e disposição de suas galerias, utilizadas para várias tarefas e funções. Constroem os alvéolos com precisão geométrica, resultando numa estrutura notável, que combina a menor quantidade de material empregado (cera), com a forma mais adequada em economia de espaço disponível e maior capacidade de armazenamento. Somente o formato hexagonal das células alveolares possibilita a combinação dessas vantagens, além de conferir solidez à estrutura por ter todos os seus lados compartilhados com outras células sem a perda de espaço útil entre as mesmas. Com o propósito de domesticar as abelhas e ter mais controle sobre a obtenção do mel, o homem passou a induzir a construção da colméia em suportes diversos. De início utilizou troncos ocos de árvores, depois passou a trabalhar troncos, esvaziando seus miolos, para em seguida construir cilindros ou cones de barro cozido. A confecção de colméias em caixas de madeira, contendo quadros móveis em seu interior possibilitou maior controle e o manejo racional e eficiente da criação de abelhas, tornou-se uma atividade rentável e bastante técnica, conhecida como Apicultura.
Ao olharmos uma colméia de abelhas, notamos um incessante e frenético ir e vir desses minúsculos seres voadores, num aparente movimento aleatório, incansavelmente confuso. Olhemos com mais cuidado e a movimentação vibrante e sem sentido de antes, dará lugar a um melhor entendimento à medida em que nos familiarizamos com as atividades próprias da colônia. Entender a Colméia significa antes de mais nada entendermos suas personagens: as operárias, a rainha e os zangões. Tarefa nada fácil, mas surpreendentemente gratificante.
Operárias
Abelha Operária Para entendermos a agitação da colméia temos que conhecer aquelas que promovem essa agitação. Todo o dinamismo da colméia se deve ao vai-e-vem daquelas que "animam" a colônia. As operárias são responsáveis por todo o trabalho na construção e manutenção da colméia, incluindo a coleta de matéria prima para a fabricação de alimentos, a limpeza e higiene ambiental, os cuidados e alimentação da Abelha-mãe (Rainha), das abelhas recém nascidas (larvas) e dos zangões (machos). Empenham-se na defesa da comunidade contra possíveis invasões de estranhos e até controlam a temperatura no interior da colméia, mantendo-a entre os 33 e 36 ºC.. As operárias são a própria definição de trabalho e organização dentro da colméia. São disciplinadas, dedicadas, ativas e trabalham o tempo todo. Nascem 21 dias após a postura dos ovos pela rainha, sendo alimentadas nos três primeiros dias de vida com geléia real, período no qual crescem de forma notável, aumentando seu peso em cerca de 250 vezes. Após esse período, alimentam-se de mel e pólen, muito ricos em proteínas e bastante energéticos, o que lhes dará a capacidade de trabalhar quase que incessantemente.
Berçário com alvéolos contendo larvas de operárias e zangões e as cápsulas realeiras que encerram as futuras rainhas O trabalho de uma operária tem início praticamente desde o momento de seu nascimento. Antes mesmo de seu terceiro dia, se empenha na tarefa de limpeza e higiene da colméia, nesta fase as operárias são denominadas faxineiras. Já no seu quarto dia de existência, ocorre o desenvolvimento de sua glândula hipofaríngea responsável pelas secreções utilizadas na maravilhosa produção de nutrientes com os quais alimenta as larvas da colônia. Pela maturidade dessa tarefa, a operária começa a produzir a geléia real e passa a alimentar e cuidar da Abelha Mãe. Nesta etapa, são chamadas nutrizes. Entre o nono e o décimo dia, com o desenvolvimento de sua glândula cerígena, a operária produz a cera, utilizada na construção e selagem dos alvéolos hexagonais que estruturam a colméia e armazenam mel, própolis, geléia real e também servem de ninho e berçário às larvas. Nos dias muito quentes as operárias ventilam o interior da colméia movimentando suas asas, enquanto nos dias frios aquecem as larvas com o calor do próprio corpo.
A partir do vigésimo-primeiro dia de existência, a operária pode voar, e, então, inicia seu último e mais longo estágio de vida, como coletora do néctar das flores, pólen e água, agindo também como guardas vigilantes na proteção da colônia. A operária trabalha, então, arduamente, até o final de sua vida que pode ter uma duração variável entre 35 a 60 dias de vida. Em condições excepcionais as operárias atingem os seis meses de vida. Uma operária, apesar de ser uma abelha fêmea, é completamente estéril, tendo seus órgãos reprodutores não desenvolvidos. Sua função na vida é trabalhar em prol da colônia, sem descanso, dia e noite, até seu último dia, com disciplina, determinação e dedicação inconcebíveis, sem outra opção, embora o faça com desprendimento desconhecido por nós. Apesar de toda essa dedicação, não o fazem, entretanto, de maneira totalmente gratuita. Recebem da rainha uma porção estimulante, da qual nunca esquecem ou deixam de desfrutar. As operárias anseiam por essa substância e parecem recebê-la como pagamento ou compensação. Entretanto, esta dose diária inebriante e avidamente disputada, ao mesmo tempo em que as satisfaz, inibe, todavia, a postura regular de ovos. A ausência de geléia real na dieta, conjuntamente com a administração desse feromônio compensador da rainha, impede o desenvolvimento de seus aparelhos reprodutores, tornando-as estéreis por toda a vida. Apesar dessa substância compensadora, elas personificam a renúncia ao prazer pessoal, ao individualismo, demonstrando um espírito comunitário no mais alto grau. Por amor ao trabalho ? Por amor a sua Rainha ? Pela preservação da espécie na existência da própria colméia ? Isso jamais saberemos..Podemos apenas conjeturar . . . sem nunca sabermos, ao certo.
Rainhas
A Abelha Rainha é a personagem mais importante na colméia. Seu papel é fundamental na existência e destino de toda comunidade. Desde seu estado de pupa, quando envolvida numa cápsula especial (realeira), recebe cuidados diferenciados, por parte das operárias nutrizes. Ela é alimentada com geléia real por toda sua vida e é a única fêmea que põe ovos férteis na colônia, sendo, pois, a mãe de todos os indivíduos: operárias, zangões e mesmo outras rainhas.. Dela depende a harmonia, os trabalhos, até mesmo o humor da colméia.
A rainha leva de 15 a 16 dias para nascer e, ao sair da realeira, de imediato destrói as pupas contendo outras rainhas. Caso nasçam duas ao mesmo tempo, lutarão até que a mais forte permaneça viva. Desde seu nascimento é atendida em suas necessidades por um verdadeiro séquito de jovens operárias, que a alimentam, cuidam da higiene de seu corpo e do ambiente onde ela fica, até mesmo "massageando-a" ou tocando-a em afáveis carícias. A rainha é bem maior que as operárias e tem um período de vida entre 3 a 6 anos. Já no quarto dia de vida, começa a empreender breves vôos de reconhecimento da vizinhança da colméia, em sucessivas idas e vindas, como que preparando-se e planejando o ato maior de sua vida, que garantirá seu lugar como reprodutora, mãe de toda colônia. Ao nono dia está pronta para o acasalamento, no chamado "vôo nupcial". Nesse momento, produz e exala uma forte substância, bastante concentrada, conhecida como feromônio, que irá atrair os zangões para o acasalamento. Neste vôo nupcial, o único em toda sua vida, pode copular com até oito machos, e ao retornar à colméia, traz em seu ventre uma quantidade de espermas suficiente para toda uma vida de fecundação. Ao chegar, pesada e exausta, recebe os cuidados imediatos das operárias, que limpam seu corpo e generosamente a alimentam. Sempre na Primavera, utilizando parte desse sêmen armazenado em uma espécie de bolsa esférica denominada espermateca, fecunda em seu interior uma quantidade extraordinária de óvulos, que serão expelidos aos milhares, durante a estação, chegando a pôr cerca de 3.000 ovos ao dia.
Abelhas-amas, alimentando a rainha
O que realmente vem a ser uma Abelha Rainha ? Do ponto de vista biológico, a rainha é uma operária que atingiu a maturidade sexual. Por ser alimentada exclusivamente com geléia real, que é um produto riquíssimo em proteínas, vitaminas, minerais e hormônios sexuais ela alcança tamanho e energia consideráveis e tem seus órgãos reprodutores plenamente desenvolvidos. A rainha produz a partir de suas glândulas mandibulares um feromônio que distribui a todas as abelhas da colméia. Esta substância, além de informar a todas as abelhas da presença da rainha na colônia, indicando que ela está bem e ativa, mantém as operárias em constante trabalho. De tão intenso e concentrado, seu cheiro permeia todos os locais acessíveis da colméia, extrapolando até mesmo os limites físicos da construção e se espalhando pelos territórios circunvizinhos. As abelhas têm a capacidade de absorver esse perfume, em quantidades infinitesimais, dissolvidas no ar ou podem recebê-lo mais concentrado, diretamente da rainha. Pode acontecer, no entanto, que a rainha seja capturada por um pássaro em seus vôos virginais de reconhecimento, pode ser que tenha sido vitimada por algum acidente inesperado ou mesmo nos estágios avançados de velhice, com a diminuição gradual dessa substância. Quando isso ocorre, as operárias de imediato sentem a ausência da abelha-mãe, pela falta ou pelo decréscimo da quantidade do feromônio exalado por ela. Começam a alimentar as pupas reais, contidas nas realeiras, para o providencial e pronto nascimento de uma princesa sucessora.
Amas atendendo a rainha na postura de ovos Uma abelha rainha jamais será atacada por uma operária, mesmo que seja uma invasora proveniente de outra colméia. Assim, a invasora e a rainha mãe lutarão até que apenas uma sobreviva. As operárias não tomam partido na disputa, apenas cercam sua rainha e a pretendente, esperando o resultado da peleja. Caso a invasora seja uma rainha jovem com visível vantagem física sobre a soberana idosa, as operárias cercam a pretendente, sem qualquer ato agressivo, tocando e acariciando seu corpo, mas sem, todavia, deixá-la sair. Neste isolamento de aparente carinho, a invasora perece de fome, deixando de ser uma ameaça à soberana de direito. As operárias são extremamente cuidadosas e carinhosas com a abelha rainha, estão constantemente ocupadas em seu bem estar e nem mesmo dão as costas a ela! Quando em sua presença, as abelhas nutrizes ou amas permanecem em torno da rainha e ao se afastarem, fazem-no com movimentos para trás, sem virar-lhe as costas.
Do ponto de vista social, a abelha rainha desempenha um papel muito importante, crucial até para o desenvolvimento e bem estar da colméia. Ela é responsável pelo verdadeiro "Espírito da Colméia", ordenando as tarefas, promovendo a harmonia e satisfação de todos. Do ponto de vista pessoal, embora a rainha pareça desfrutar da companhia e devoção das operárias, em especial as abelhas jovens em estado de amas ou nutrizes, a sua longevidade, entretanto, faz com que ela testemunhe o aparecimento e desaparecimento de gerações e gerações de abelhas, suas filhas. Uma estranha existência de prazeres, na mais profunda solidão. Parece-nos irônico, que, embora receba tantos cuidados pessoais, a abelha rainha tenha que manter-se à parte, por força de seu próprio destino, de qualquer relacionamento mais duradouro. A sua vida de prazer é a própria perpetuação de sua família e de sua espécie. Acima de tudo isso, sua obrigação e sua missão resume-se à postura incessante de ovos para a formação de descendentes. Neste sentido, ela é mais que rainha, ela é tão somente a abelha-mãe.
Zangões
Desajeitados, trapalhões, desengonçados, comilões, indolentes, preguiçosos, parasitas, inúteis, estúpidos . . . esses são alguns dos adjetivos que encontramos em textos sobre as abelhas, em referência aos zangões. Não raro até se comemora, o advento de suas desventuras. Mas . . . será que é mesmo assim ? Vejamos como eles são.
Os zangões nascem 24 dias após a postura dos ovos, atingem plena maturidade sexual aos 12 dias após seus nascimentos e dependem totalmente das operárias para subsistência, pois são alimentados por elas. Enquanto as operárias, ao nascerem, têm que sair do ovo e da célula reprodutiva por esforço próprio, os zangões são ajudados nesta tarefa pelas amas, e por elas regiamente alimentados com geléia real. A partir do quarto dia, são alimentados com mel e pólen em quantidades maiores que as oferecidas às operárias. Dessa forma, eles desenvolvem volume corpóreo quase duas vezes maior que as operárias, embora sejam um pouco menor que a rainha.
Os zangões nascem de ovos não fecundados da rainha. Assim eles têm metade do conjunto de cromossomos das operárias e rainhas. Nestas o conjunto completo soma 32 cromossomos (diplóides), enquanto neles, 16 cromossomos haplóides. Aqueles gerados por uma mesma rainha são geneticamente idênticos e a diversidade ocorre quando eles fertilizam uma rainha de uma outra colméia, o que ocorre com muita freqüência. Diferente das operárias, o zangão é insensível ao feromônio habitual da rainha. Na verdade ele a ignora completamente, esbarrando nela quase sempre ou compartilhando de sua geléia real. Sendo o único macho da colméia, sua única função é a fecundação de uma rainha. Não possui ferrão ou membros corpóreos adequados ao trabalho, mesmo assim, nos dias muito frios, ajudam no aquecimento interno vibrando seus corpos e nos dias quentes de verão agitam suas asas fazendo circular o ar, como fazem as operárias. Obstruindo passagens e corredores da colméia e sujando tudo com seu excremento, defendem a colméia, todavia, na presença de um invasor, fazendo muito barulho, pretendendo assustá-lo, pois na verdade são desprovidos de ferrão e, portanto, inofensivos. Eles têm como única função a procriação e nisso são especializados. Têm grande capacidade de vôo e os olhos enormes enxergam a grandes distâncias o que possibilita não perderem de vista uma rainha durante o vôo nupcial. Mas, enquanto essa hora não chega, os zangões apenas comem, e nisso também são especialistas. Ao primeiro sinal de falta de provisões ou escassez de alimentos, entretanto, são expulsos da colméia e morrem de fome se for verão e de fome e frio se inverno.
Os zangões com freqüência, saem, em vôos exteriores e se congregam em locais bem distantes das colméias denominados "áreas de congregação de zangões". Provenientes de diferentes colônias, ajuntam-se nessas áreas à espreita de alguma rainha virgem para o acasalamento. Quando uma rainha está pronta para o acasalamento, expele um feromônio que pode ser percebido por um macho até 10 quilômetros de distância. Assim que ela sai em vôo, uma congregação de centenas de milhares de zangões saem em seu encalço, subindo cada vez mais alto, na tentativa de alcançá-la. Neste percurso, apenas os machos mais fortes e capazes conseguem acompanhar a rainha virgem. Ao alcançá-la, inicia-se a cópula em pleno vôo, pois, assim quis a Natureza, os órgãos reprodutores dos zangões funcionam somente no ar, em vôo. Ao injetar uma enorme quantidade de esperma dentro da rainha, o zangão, exausto, tem seu abdômen aberto e sua genitália, com parte dos órgãos de seu abdômen são extraídos e ele precipita-se ao solo, corpo dilacerado, parcialmente vazio, em queda espiralada. A rasinha copula com vários zangões e todos têm o mesmo final.
Quando a rainha, retorna à colméia, ventre repleto de sêmen, ocorre um dos eventos mais marcantes da colônia, quando as operárias, conhecendo da fecundação de sua rainha, investem contra os indefesos zangões, no amanhecer do dia seguinte, atacando-os impiedosamente, perfurando-lhe os grandes olhos, injetando doses letais de apitoxina com seus ferrões, separando-lhes o abdômen do tórax cortando-lhes a fina conexão entre esses membros, enfim, matando-os, todos, e, durante todo o dia, arrastando os cadáveres para fora da colméia aos milhares, num funesto espetáculo, depositando seus corpos em algum local, bem longe da colméia.
Os zangões vivem cerca de 60 a 90 dias em condições normais, quando nada do que foi descrito acima acontece. Comem muito e nada fazem, pois sendo desprovidos de membros (patas e ferrões) adequados às tarefas da colméia, estão, não obstante, preparando-se para o que lhes reservou a Natureza, como missão na vida. É uma grande ironia que o zangão sinta dor, no momento em que sinta e outorgue prazer e que encontre a morte no exato momento em que transmita a vida. As referências pejorativas de alguns escritores desavisados, nada mais é, que um ato de ignorância aos ditames e exigências da Natureza. Esta sim, tem seus sábios e tortuosos propósitos que nem sempre nos cabe compreender.
Enxame
Uma colméia com um número razoável de zangões é um bom sinal, pois indica que a colônia está progredindo, ao passo que uma quantidade elevada de zangões é indicativa de que a colméia está em franca decadência, ou sua rainha está em idade avançada. O bom funcionamento da colméia reflete-se no equilíbrio populacional, na disponibilidade de alimentos armazenados, na fartura de flores nos arredores, poucas realeiras na área dos ninhos, movimentação controlada de abelhas dentro e fora da colméia etc. Quando algum desses eventos ocorrem de forma isolada ou dois ou mais deles simultaneamente, sucede o fenômeno conhecido como enxame ou enxameamento, que é a transposição de parte da colméia (por divisão) para um outro lugar..
Amontoado de abelhas, enquanto esperam pela definição de um novo local. As operárias saem com sua rainha à procura de um novo local, para a reconstrução da colméia, começando tudo de novo. Na colméia antiga, algumas operárias permanecem a espera do nascimento de uma nova rainha para o restabelecimento das condições anteriores, normais. Alguns fatores podem acelerar esse processo, tais como falta de espaço para a rainha colocar seus ovos, temperaturas extremas de muito calor ou frio no interior da colméia, favos velhos ou em precário estado de conservação. Quando sentem que pela ocorrência de algum fator, a integridade da colméia está em perigo, algumas operárias colocam-se do lado de fora, unindo seus corpos formando uma espécie de corda viva, próximo à entrada da colméia. Está dado o sinal: o enxameamento já pode começar. Para as abelhas é necessário à sua preservação, como espécie, que ocorra o enxameamento. Ao saírem em busca de novas paragens, as abelhas amontoam-se dependuradas em um galho de árvore, agarrando-se umas às outras, de forma dramática, perfazendo um "cacho" com a rainha no centro. Muitas operárias campestres, saem em busca de novo local adequado. Ao encontrarem o que pode ser um bom lugar, retornam para o grupo e submetem ao conselho ou assembléia que deliberará sobre a oportunidade ou não de cada local proposto. Quando finalmente se decidem, não raro após muita ponderação, escolhem, normalmente, um local bem distante da colméia que deixaram para trás.
É notável que as abelhas empreendam o enxame como forma de preservar a espécie é igualmente notável que sua rainha se submeta a todo desconforto e parta com elas na aventura de novas paragens, ao invés de permanece no conforto da antiga colméia. Seria mais lógico se ela ficasse e um grupo saísse para um nova empreitada. Mas, como podemos perceber, é típico das abelhas o sacrifício pessoal em prol da colônia, em prol da família.
Tesouros Desejados
As abelhas permanecem sempre alertas às incursões de estranhos em sua colméia. Guardam a entrada, mantêm constante vigília no interior e na vizinhança exterior. São especialmente cuidadosas com a área de reprodução, onde se encontram as células com as larvas e pupas para proteger suas crias de algum predador. Seus verdadeiros tesouros, entretanto, invejados e desejados por muitos de seus inimigos, são as doçuras produzidas e armazenadas. Resultados de horas de trabalhos e habilidade incomuns, são também muito cobiçados pelos homens: o mel, a geléia real, o própolis, a cera. Todos muito procurados, verdadeiros tesouros.
Mel
Este é o mais importante e conhecido dos produtos das abelhas. O mel é uma das maravilhas da natureza, procurado e valorizado desde a Antiguidade. Foi por causa desse delicioso líquido que o homem procurou domesticar as abelhas. Produzido a partir do néctar colhido nas flores pelas operárias coletoras, o mel pode ter cores e sabores diferentes, dependendo da florada da qual é obtido. Sua composição contém diferentes tipos de carboidratos (açúcares), tais como frutose, glicose, sacarose, maltose, além de isomaltose, turanose, maltulose, dextratriose, esses últimos em concentrações muito pequenas. O mel contém, ainda, pequenas quantidades de enzimas e aminoácidos diversos. É rico também em minerais, estes em concentrações significativas em ordem decrescente a partir do Potássio, Cloro, Enxofre, Sódio, Fósforo, Magnésio, Sílica, Ferro, Manganês e Cobre. Quanto mais escuro, maior será a concentração desses minerais. O mel é um excelente alimento. Pode perfeitamente cristalizar, o que, ao contrário do que se pensa, só ocorre em mel completamente puro e maduro. Pensa-se, erroneamente, que o mel cristalizado foi misturado com açúcar de cana. Nada mais errado, pois o mel assim açucarado, azeda e fermenta. O aparecimento de cristais, no mel de abelha, portanto, é um indicativo de sua pureza.
Própolis
Própolis é uma substância resinosa coletada pelas abelhas a partir de brotos das folhas e transpiradas pelas árvores. As abelhas modificam a composição da resina original, produzindo este produto que usam como selante e verniz nas paredes internas para conter o crescimento microbiano dentro da colméia. A composição química do própolis é bastante complexa, embora suas propriedades antibacterianas, antivirótica, fungicida, antitóxica e citotóxica com efeitos anti-inflamatório e anti-oxidante sejam bem conhecidas. Por essas propriedades biológicas, o própolis tem uma vasta aplicação medicinal. Mais de 200 compostos químicos individuais foram identificados como constituintes do própolis, metade dos quais são do grupo dos polifenóis, tais como os Ácidos Fenólicos do tipo vanílico, salicílico, cinâmico, p-cumárico, felúrico, caféico, entre muitos outros. Contém muitos Ésteres e Flavonóides, especialmente Flavonas, Flavonóis, Flavononas, Dehidrofavonóis e Isoflavonas. Contém ainda resinas, bálsamos, ceras, ácidos oleicos e óleos etéricos, além de 16 aminoácidos, todas as vitaminas conhecidas (exceto a vit. K) e todos os minerais essenciais ao bom desempenho das funções do corpo humano à exceção do enxofre. Devido à ação anti-séptica, sabe-se que o interior das colméias é um dos ambientes mais estéreis encontrados na natureza. Assim, por suas propriedades farmacológicas, anti-oxidante e como antibiótico natural, o própolis é largamente utilizado, e cada vez mais, no tratamento de enfermidades diversas.
Geléia Real
Amas e Rainha em favos de geléia real Produzida a partir da secreção das glândulas hipofaríngeas situadas no topo da cabeça das abelhas ocupadas no atendimento às larvas, a Geléia Real é uma substância de estrutura química complexa, ainda não totalmente conhecida. Durante os primeiros três dias de vida das larvas, é o único alimento oferecido pelas abelhas nutrizes a todas as abelhas recém nascidas. Ao final desse período (3 dias) as abelhas operárias têm seu peso aumentado em até 250 vezes. É o único alimento oferecido à Rainha durante toda sua vida. É a administração desse alimento que comanda a formação de uma fêmea reprodutora. O fato de que apenas as rainhas têm a possibilidade de reprodução, é devido à geléia real, vital no desenvolvimento pleno do aparelho reprodutor numa fêmea. Experimentos comprovam que operárias alimentadas com geléia real a partir de seu terceiro dia após o nascimento, desenvolvem-se como rainhas plenas. Parece, portanto, que a geléia real com todas as suas proteínas, enzimas, aminoácidos, minerais, hormônios e muitas outras substâncias, é que faz a diferença entre uma rainha e as operárias. Este alimento ricamente concentrado, é muito útil para os seres humanos também, pois contém grande quantidade de proteínas, lipídios, glucídios, vitaminas, hormônios, enzimas e minerais diversos. Contém ainda substâncias específicas que desempenham fator vital que agem como biocatalizadores nos processos de regeneração celular no corpo humano.
Pólen
Cada vez que uma operária visita uma flor, ela não coleta apenas o néctar que será transformado em mel. Também traz, em suas patas traseiras, uma boa quantidade de pólen. Parte desses polens serão depositados em outras flores, polinizando-as. Carregarão consigo, todavia, a maior parte do polen coletado que servirá como importante alimento em sua dieta. De todos os polenizadores, as abelhas são de longe os mais importantes e eficientes. Na colméia, o polen será recebido palas nutrizes, por elas ingeridos, fermentados, regurgitados e transformados em uma iguaria com altíssimo teor de proteína, fibra e todos os nutrientes necessários à dieta das operárias e zangões. As larvas recebem suplementos desse alimento até o estágio de pupas. Quando adultas, as abelhas se alimentam de pólen e mel em misturas com diferentes quantidades e proporções, conforme sejam operárias ou zangões.
Cera
A cera das abelhas é um material semi plástico fabricado pelas operárias. É produzido pelas secreções das glândulas cerígenas e muita energia é despendida pelas abelhas para produzi-lo. Para cada quilo de cera, cerca de 13 quilos de mel é utilizado como matéria prima no processo de fabricação. É utilizada como fonte primária de construção dos alvéolos hexagonais onde serão armazenados os ovos, nos berçários, o mel, a geléia e o pólen, servindo ainda como estrutura das "ruas e corredores" que compõem a colméia-cidade. No passado, a cera foi muito usada como combustível e, ainda hoje, tem esse uso em algumas cerimônias religiosas tradicionais. A cera é utilizada pela medicina na fabricação de remédios, pastas, ungüentos e pomadas. Tem aplicações na indústria aeronáutica, entra na composição de cremes cosméticos, fabricações de ceras, vernizes, graxas e confecção de velas.
Pequenos Segredos
A abelha rainha está pronta para empreender o vôo nupcial já entre o sexto e o nono dia de vida. Entretanto, decorrido esse período sem que ainda não tenha saído em vôo para ser fecundada, ela é "empurrada" para fora pelas operárias que não querem ter sua rainha fertilizada tardiamente. Ela pode ser fecundada por mais de um macho em um ou vários vôos nupciais. Em média, o número de zangões que copulam com a rainha está entre 8 ou 9, embora tenha sido observados casos em que a rainha copulou com até 18 zangões. Cada vôo tem duração média entre 20 a 25 minutos e sempre ocorre acima dos 11 metros. Uma rainha grande pode armazenar até oito milhões de espermatozóides em sua espermateca, utilizando-os para fertilizar seus óvulos por toda a sua vida. Além disso a rainha sabe exatamente que tipo de ovo está pondo: se de operária ou de zangão. Para estes últimos, ela sempre os deposita em alvéolos maiores.
A rainha parece também controlar os ovos que serão fecundados com os espermatozóides armazenados em sua espermateca (gerando operárias ou rainhas) ou permitindo a postura de ovos não fecundados (gerando zangões). O mais interessante é que a rainha quando recebe sêmen de diferentes machos, armazena-os separadamente em sua espermateca, tendo perfeito controle sobre quando e quais utilizar para a fertilização de seus óvulos. Durante a postura dos ovos nos alvéolos, a rainha sempre se coloca no centro da área que contém essas células hexagonais e as preenche desde a primeira, seguindo uma espiral crescente no sentido horário. Antes de por cada ovo no alvéolo, a Abelha-Rainha sempre olha para verificar se o mesmo está limpo e em ordem. Nesta tarefa ela é seguida por um grupo de operárias atendentes. Caso algo esteja errado, as operárias imediatamente limpam ou providenciam o reparo da célula. Ao final, sob orientação das operárias, ela retorna aos alvéolos vazios e os preenche normalmente. Parece que este procedimento evita que alguma célula não seja preenchida por lapso ou "esquecimento". As operárias desempenham suas tarefas com calma, disciplina e presteza. Há um momento, no entanto, em que perdem o equilíbrio e entram em completo desespero. Isto ocorre quando da morte acidental e inesperada de sua rainha. Os estudiosos e apicultores experientes, ouvem uma espécie de choro e lamento contínuo, acompanhado de frenética movimentação na colméia. As abelhas são impedidas de por ovos devido aos feromônios que recebem da rainha, ao mesmo tempo em que são incapazes de serem fecundados por não terem os órgãos reprodutores desenvolvidos. Mas, no auge do desespero, muitas acorrem aos berçários e precipitam-se à postura de ovos, na verdade óvulos, que, sendo inférteis, darão nascimento apenas a zangões. Outras, menos aflitas, iniciam os cuidados redobrados na alimentação e proteção das larvas e pupas contidas nas realeiras. Essa, uma atitude mais sensata e eficiente.
Operária carregando pólen As abelhas têm dois pares de olhos compostos em cada lado da cabeça, constituídos de milhares pequeninos segmentos lenticulares hexagonais. Elas não os move para seguir algo em movimento, mas percebem muito bem o deslocamento de objetos, pois cada minúsculo segmento é na verdade um olho independente que envia informações ao cérebro que registra as imagens na seqüência exata em que as recebe. Possuem ainda três pequenos olhos simples (ocelos) no alto da testa, entre os dois olhos compostos, estando dispostos como se estivessem nos vértices de um triângulo de ponta para baixo e que são úteis na escuridão interna da colméia. Enxergam as cores do espectro desde o laranja até o azul e além, na faixa em que nada enxergamos, na região do ultra-violeta. Para as abelhas, o vermelho e o preto são percebidos da mesma forma, como se fossem ausência de cor. Cores fortes as deixam agitadas, mas permanecem calmas diante do branco e tonalidades bem claras, especialmente de amarelo, bege e azul. As operárias enxergam melhor que as rainhas e a habiliidade visual dos zangões supera em muito a de ambas. Os zangões costumam observar uma rainha-virgem efetuando vôos de reconhecimento, antes desta estar pronta para o acasalamento. Apenas observam e freqüentam as vizinhanças da colméia esperando o momento certo. Nessas esperas, os zangões são bastante solidários e cúmplices entre si. Emitem um feromônio de aviso aos demais zangões, mesmo os de outras famílias, comunicando-lhes da existência de uma jovem rainha, prestes a efetuar o vôo de acasalamento. Milhares de machos acorrem às vizinhanças da colméia. Quando a rainha-virgem está pronta, exala um perfume (feromônio) percebido pelos zangões até cerca de dez quilômetros. Quando as rainhas iniciam o vôo, milhares de machos a perseguem, numa formação semelhante a um funil, com os mais fortes e capazes na frente, mais próximos daquela que (para todos eles) é o objeto de desejo e atração.
A comunicação entre as abelhas ocorre por meio de cheiros, feromônios, movimentos (danças) e sons. Através da dança, as abelhas comunicam a suas companheiras a localização (distância e orientação) de um campo florido ou um local adequado para a nova colméia (no enxame). Fazem uso de círculos para indicarem distâncias, descrevendo eixos na coreografia da dança que se relacionam com o sol, para orientarem as companheiras da direção a ser seguida.. Enquanto a Apis mellifera licusta (italiana) pode saber a posição do sol durante o dia, mesmo em dias completamente nublados, as africanas (Apis mellifera adansonii ) têm a extraordinária capacidade de saber a exata posição do sol mesmo durante as horas da noite ! Nas abelhas desprovidas de ferrão, em algumas espécies distribuídas nos gêneros Euglossa, Trigona e Melipona, as tarefas são efetuadas pelas operárias do mesmo modo como nas Apis, embora, nessas espécies, possa haver mais de uma rainha (até cinco) perfeitamente integradas e ativas nas ocupações próprias de qualquer rainha. Nessas espécies de abelhas há, ainda, a participação dos zangões em diversas tarefas, inclusive na coleta e transporte de essências vegetais úteis à colônia. Os machos são produzidos em profusão tanto pelas rainhas como pelas operárias. Nesse contexto, os zangões podem ser expulsos da colméia, o que ocorre alguns dias após saírem dos ovos e quando houver uma superpopulação de zangões, embora nunca sejam atacados e mortos pelas operárias, mesmo após a fecundação de todas as rainhas. É digno de nota que nas espécies desprovidas de ferrão, não existe a fúria da rainha, impelida a destruir rivais, logo ao sair dos ovos, impondo-se de maneira exclusiva. Tampouco existe a dramática matança dos zangões, quando da fecundação da rainha da colônia, após o vôo nupcial. Seria razoável supor que as abelhas sem ferrão sejam mais evoluídas que aquelas equipadas com esse instrumento ? Quer pela ausência de cruel comportamento, quer pela melhor participação das três classes no desenvolvimento da colméia, somos induzidos a achar que sim. Mas isso ainda não sabemos dizer. Julgamos sempre segundo nossa moral e valores pois, enquanto espécie, nos é muito difícil entendermos qualquer coisa, por mais maravilhosa que seja, mas que escape aos nossos ideais humanos. Podemos nos maravilhar com a organização e administração dos negócios da colméia. Podemos nos deliciar com os resultados do que as abelhas podem fazer, mas podemos e devemos aprender com o melhor que elas têm, refletindo em nós mesmos o que elas oferecem de positivo.
Recife, 22/06/2007
Bibliografia
Maurice Maeterlinck, A Vida das Abelhas - um mundo maravilhoso - Hemus Editora Ltda, São Paulo/SP Helmuth Wiese, Nova Apicultura - Livraria e Editora Agropecuária, 3ª Ed. 1982- Porto Alegre/RS Hugo Muxfeldt, Apicultura para Todos - Livraria Sulina Editora, 3ª Ed. 1977 - Porto Alegre/RS Rita Surita / Mário Lemos, Criando Abelhas - Projeto T. A. Fase, 1987 - Rio de Janeiro/RJ Melchor Biri / J.M. Alemany Albert, Moderna Criação das Abelhas - Editorial De Vecchi S.A, 1979, Barcelona João M.F. Camargo (organizador), Manual de Apicultura - Editora Agronômica Ceres Ltda, 1972 - São Paulo/SP
Créditos
Figura
da colméia -casinha - Florida
Center for Instructional Technology
- etc.usf.edu/clipart Figura das amas atendendo a rainha na postura de ovos - www.lasi.group.shef.ac.uk
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