Página Principal                                                                   Retornar  para Mistérios

 

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

O Artefato de Antikythera 

                                                                          J. R. Araújo

 

 

 

Entre os tesouros do Museu Nacional de Arqueologia da Grécia, em Atenas, está o que  restou  do mais complexo  instrumento científico preservado desde a antiguidade. Corroído e destruído por mais de 2.000 anos sob o mar, seus mostradores, engrenagens  e  inscrições apresentam  aos historiadores  um  problema  torturante. Em 1900, mergulhadores trabalhando próximo à pequena  ilha de Antikythera, na Grécia,  encontraram  os  restos  de  um  navio afundado Entre os mergulhadores, Elias Stadiatos, foi  o  primeiro a encontrar o navio repleto com estátuas antigas, jóias, porcelanas, móveis finos, barris de vinhos e artefatos de bronze, do primeiro século AC. Tudo  foi  recolhido  e  levado  ao Museu  Nacional. Alguns  meses depois, Valerios StaÎs, um arqueólogo do museu, examinando e catalogando os objetos encontrados, teve sua atenção voltada para um volume de  material  calcificado  que  envolvia  uma  peça  que, de  início,  pensou  tratar-se  de  fragmento de uma das estátuas de bronze.  Em  uma  análise  mais  cuidadosa,  descobriu  ser  parte de um  mecanismo  com  mostradores  e  engrenagens.  Após o paciente trabalho de limpeza efetuado pelos técnicos do museu, parte  da camada calcária que envolvia  o  mecanismo foi retirada  e  os  arqueólogos  puderam  examiná-lo em seus detalhes. 

            Artefato de Antikythera

Após muitos  estudos,  o  Dr. Derek  Price, um  especialista em  História da Ciência da Universidade  de Yale, Estados Unidos, concluiu que o mecanismo parece ter sido usado para o cálculo e previsões do movimento do sol, planetas e estrelas do zodíaco: uma  espécie  de  computador astronômico !  Seus trabalhos foram publicados na prestigiada revista científica Scientific American,  na  edição  de  Junho  de  1959. Segundo o pesquisador  Benjamin Dean Meritt, as  palavras  usadas,  seu  sentido astronômico  e  o  formato das  letras,  nas  inscrições  no  artefato, são tipicamente  do primeiro  século  antes  de  Cristo.  Além  disso,  os  objetos  encontrados  no  navio são  provenientes das ilhas  de  Rhodes e  Cos,  fabricados  nesse  mesmo  período, o que confere uma possibilidade indireta de sabermos a data aproximada do artefato.

 

 

 

                                                          

      Relógio do início do Séc XX                                           Esquema de Relógio Moderno                                Esquema do Artefato

A foto e os desenhos acima mostram a semelhança das engrenagens de um relógio suíço moderno e o mecanismo do artefato de Antikythera.

Com base nos fragmentos, podemos ter uma noção da aparência do objeto original, que consistia em uma caixa com mostradores e montagem de um complexo sistema de engrenagens que lembram um sofisticado relógio suíço do Século 19.  Por toda a caixa que revestia o mecanismo, mostradores e inscrições em grego antigo instruíam e descreviam o funcionamento do instrumento. Pelo menos 20 engrenagens foram preservadas, incluindo um sofisticado sistema excentricamente montado numa plataforma giratória que provavelmente funcionava como um tipo de engrenagem epicíclica ou diferencial.  Sabemos  ser  quase  impossível  a  construção  de  um  mecanismo  de  engrenagens diferenciais  sem  o  conhecimento do Cálculo  Diferencial,  que    foi  concebido  por  Isaac Newton  a  partir  de 1665. 

                                 

                       Como as rodas de um veículo fazem uma curva                                                          Engrenagens diferenciais

 

 

Um tipo de engrenagem  diferencial é aquela utilizada nos automóveis para possibilitar o trajeto numa curva,  onde  as rodas  da  parte  interna  da  curva  giram  menos e em menor velocidade  que  a  parte  externa.  Como o raio desde o centro da curva é menor para a roda mais próxima deste ( r1 )  e como as rodas percorrem arcos (caminhos) diferentes, as velocidades ( W1 e W2 têm que ser diferentes. Caso  as  rodas  de  um  veículo  girem  sem  uma  engrenagem diferencial, fica  mais  difícil  o  trajeto  numa  curva.,  especialmente  se  o  eixo  que  une  as  duas  rodas  for  muito longo.

As engrenagens dentro do mecanismo foram fixadas numa placa de bronze. Em um lado da placa podemos verificar a estrutura de todas as engrenagens, inclusive determinando  a quantidade de dentes em cada engrenagem, a medida e ângulo ( 60º) de corte destes e como encaixavam uma nas outras. No  outro  lado do mecanismo, podemos determinar a mesma  estrutura,  com  os mesmos detalhes. Há sinais de que o artefato foi consertado pelo menos duas vezes; um dos raios da engrenagem principal foi remendada e um dos dentes de uma menor  foi  mudado. Isso prova que o mecanismo realmente funcionava. A precisão deste instrumento era espantosa, chegando mesmo a ter mecanismos de compensação para os anos bissextos. Devido aos movimentos do Sol, da Lua  e dos planetas relativos a Terra,  todos  os  movimentos de aparente paradas, retrogradações  e  acelerações eram devidamente  reproduzidos. O mostrador apresenta uma graduação bastante acurada, permitindo a verificação de  um  erro  médio da ordem de  ¼  de grau  a cada 45 graus, visível  apenas  quando  analisado  ao  microscópio.

O  artefato  de Antikythera  parece  ser  um  computador astronômico  analógico (mecanizado) construído  para  facilitar  os  cálculos  que,  de  outra  maneira  seriam  por  demais  tediosos.

Por  sua  causa,  teremos  que  revisar  muito  do  que  estimamos  acerca  da  história da  Ciência  e Tecnologia.  Ao estudar este  artefato, isolando-o de todas as culturas do passado,  poderemos  encontrar  sugestões  vitais para a origem dessa tecnologia altamente desenvolvida a qual,  em  um  primeiro  momento, temos  a  tendência  de  atribuí-la apenas  como  sendo  peculiar  à  nossa  civilização  moderna.

 

Recife,

19/ 06/ 2005 

      T O P O

    ________________________________________________

                 © Copyright 2005 - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução do 

                                   texto aqui  contido sem a prévia autorização do autor.