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======================================================================== Arquitetura e Poder J. R. Araújo
Ao longo da história, vemos o inevitável confronto entre a civilização e o indivíduo. O indivíduo, freqüentemente, é esmagado pelos interesses da civilização, que é um conceito efêmero, se comparado com a durabilidade da espécie. Nós, humanos, estamos circulando há alguns milhares de anos, enquanto umas 30 civilizações, com história registrada, deixaram de existir desde uns 5.000 anos. Se definirmos civilização como o patrimônio cultural, artístico, filosófico, tecnológico e econômico-social de um povo, de uma nação, veremos que os indivíduos têm muito pouco desse patrimônio como instrumento de uso pessoal. Em qualquer campo de atividade, dificilmente alguém chega a ter mais que 10% de conhecimento prático ou teórico dos tópicos relacionados com essa mesma atividade. Todo o somatório de conhecimentos que perfazem o patrimônio cultural de uma civilização é muito maior que a capacidade intelectual de um indivíduo. Entretanto, paradoxalmente, as conquistas e avanços que perfazem esse patrimônio, são, na grande maioria das vezes, contribuições, por inspiração e/ou execução, de indivíduos. O que observamos, no entanto, é que a identificação cultural ( como nação ) se sobrepõe ao conceito de espécie da mesma forma que a espécie subjuga, em importância, os indivíduos. Por isso o sacrifício individual, diante da brevidade da existência, visando eternizar a nação a que se pertence, é um conceito que parece contrapor a fraqueza do indivíduo em favor da coletividade, mesmo às custas do conforto e sonhos pessoais. Os líderes, entretanto, valendo-se de sua posição de força política, procuram confundir os ideais nacionais na pessoa deles próprios. Nas manifestações das Artes e Arquitetura, mais que quaisquer outras atividades, a grandeza e importância de uma civilização é amplamente utilizada como tema/ inspiração, quer pelo orgulho nacionalista de seu povo, quer pela ambição e capricho pessoal de seus líderes. =========================================================================
Arquitetura no Egito
Por volta do ano 3.100 AC. o Rei Menes iniciou uma das maiores civilizações ao unir os reinos do Alto Egito com o Baixo Egito. A partir de então, os historiadores costumam dividir a história do Egito em três períodos distintos, cada um deles com suas conquistas. O Antigo Reino de 2680 AC. até 2150 AC. que foi dominado pelos grandes Faraós e suas monumentais pirâmides, o Médio Reino de 2050 AC. até 1700 AC, caracterizado pela expansão das fronteiras da civilização egípcia e o Novo Reino ( 1550 a 1070 AC. ) cuja característica principal foi o florescimento das artes e da cultura.
Fig 01 - Pirâmides do Egito
A fusão da política e da religião na pessoa do Faraó conferia a estabilidade necessária para o bom funcionamento e progresso da sociedade egípcia. O Faraó era considerado a encarnação do deus Hórus, filho de Amon-Re e como tal era onipotente, perfeito e infalível. Detinha o poder político-religioso e estava acima de questionamentos; não podia ser criticado, desafiado ou deposto. Todas as terras, riquezas e bens eram propriedade exclusiva do Faraó, que podia conferir o privilégio de uso aos cidadãos por sua divina generosidade. Este conceito, fazia com que o Faro ao morrer, seria enterrado com todos os seus bens, familiares e empregados, que seriam utilizados em sua vida extra física. Assim acreditavam. Para isso construíram colossais pirâmides, para a glorificação da civilização egípcia através da glorificação do poder de seus faraós. ========================================================================
Império Romano
Fig 02 - Coliseum
O Império Romano perdurou por mais de 1400 anos ( 31 AC. até 1453 DC ), cujo domínio se estendeu por uma superfície de quase seis milhões de quilômetros quadrados. Incluía quase toda Europa, o Egito, parte do Oriente Médio, toda a Palestina, partes da África e da Ásia. Organizado pelo imperador Otaviano Augustus que expandiu o império muito além do território inicial da cidade-estado de Roma, foi o maior e mais duradouro de todo o período clássico da antiguidade européia. Teve como início as conquistas de Caius Julius César, um gênio militar que desempenhou papel importante na transformação da República Romana em Império Romano. Em 55 AC., César expandia os domínios de Roma por toda a Gália, Península Ibérica até Britannia, hoje Grã Bretanha. Tornou-se ditador e seu nome, César, seria usado como título imperial de todos os seus sucessores, iniciando por seu sobrinho neto, Otaviano. Dois anos após sua morte, o senado romano decretou que César era um dos deuses romanos. A partir de então, todos os imperadores romanos reivindicavam origem divina e o culto e obediência ao César dominante era parte das obrigações religiosas dos cidadãos comuns. Os romanos se impunham com prepotência e arrogância. Baseados em seu poderio militar, conquistaram e escravizaram populações inteiras, em um território muito vasto.
A Grécia, considerada o berço da democracia, não tem seu orgulho nacional apenas por causa de sua cultura, de seus filósofos, de sua arte. A civilização grega teve também seu apogeu imperial. Alexandre, o Grande, participou pessoalmente de muitas batalhas aumentando o território da Grécia, que dominou todo o Oriente Médio, a Pérsia, partes da Ásia e da África. ========================================================================
Arquitetura no Terceiro Reich
Na década de 30, todos os experimentos na arquitetura modernista eram abertamente atacados e estavam próximo de um final, com arquitetos e artista sendo perseguidos, alguns fugindo da Alemanha, outros sendo expulsos.
Fig 03 - exemplo de arquitetura nazista
Os prédios do governo refletiam o neoclassicismo greco-romano numa referência indisfarçável da arrogância e poder próprios da pretensa política nazista da superioridade do povo alemão. Os prédios monumentais simbolizavam a permanência do Terceiro Reich, o qual, como sonho megalômano de Hitler, deveria permanecer por mais de mil anos, mas que na verdade foi um pesadelo e fiasco que durou apenas 12 anos. Como Nietzsche disse em Twilight of the Idols: “Os homens mais poderosos sempre inspiraram os arquitetos; o arquiteto sempre foi inspirado pelo poder. Orgulho e vitória acima do peso e da força da gravidade, o desejo de poder, procura render-se visível em um edifício; arquitetura é um tipo de retórica do poder, persuasiva e convincente nas formas, até mesmo abertamente imperiosa. Os mais altos sentimentos de poder e segurança se expressam pelas coisas que demonstram grande estilo”. ========================================================================
Arquitetura Soviética
Fig 04 - Edifício em Leningrado - Atual São Petersburgo
A Arquitetura comunista, mais precisa-mente stalinista, procurava enaltecer os ideais da Revolução, ou os ideais do proletariado. Entretanto, é fácil verificar que em tudo, não era representativa do povo, mas a glorificação concentrava-se na pessoa do ditador. Era uma arquitetura remanescente do estilo Bauhaus, que curiosamente incorporava elementos da Revolução Industrial com elementos da Revolução Comunista. Mesclava o imper-sonalismo das máquinas com a personificação dos ideais da revolução na pessoa dos líderes: Marx, Lênin e Stalin. Era pois uma afirmação do poder, a mesma glorificação imperial, embora pretensa e estrategicamente deslocada como se fora uma referência ao povo. Quer por meio do ego concentrado de seu governante, imperador ou líder eleito, quer pelo ego expandido de sua classe dominante com o apoio do orgulho nacionalista de seu povo, o certo é que uma sociedade tenta demonstrar sua superioridade pela grandiosidade de suas obras arquitetônicas. A arquitetura utilitarista dos governos totalitários tem como princípio uma demonstração inequívoca de força, subestimando, no mais das vezes, elementos estéticos ou artísticos como a leveza, o equilíbrio e a graça. Influência da Bauhaus como ficou conhecida a Staatliches Bauhaus (literalmente, casa estatal de construção), famosa escola de Arquitetura e Artes de vanguarda que funcionou na Alemanha de 1919 até 1933. Foi fechada pelos nazistas sob a alegação de ser anti-germânica e de orientação comunista, devido ao fato de ter muitos soviéticos entre seus estudantes. O estilo desenvolvido pela Bauhaus (Modernismo na Arquitetura) unia a arte e o artesanato, valorizando o modernismo, a funcionalidade e as máquinas, o grande ícone da produção em massa, elemento basilar da Revolução Industrial. Podemos ver, portanto, que a alegação feita pelos nazistas de que o estilo Bauhaus era anti-germânico, carece de coerência histórica, pois ao adotarem elementos típicos da arquitetura imperial romana, concordavam com as investidas destes contra os povos saxônicos, no que resultou na expansão do Império Romano até territórios germânicos. O certo é que em ambas as formas modernas de totalitarismo, nazista e stalinista, a arquitetura utilitarista típica do estilo Bauhaus foi amplamente adotada, apesar da rejeição inicial dos nazistas como forma de oposição aos comunistas. ========================================================================
O Império Britânico
A Europa colonialista teve na Inglaterra e França suas principais potências entre o Século XIV e as primeiras três décadas do Século XX.
Fig 05 - Palácio de Buckingham O Império Britânico surgiu como um prosseguimento das descobertas e explorações marítimas de Portugal e Espanha. Durante o período de existência, entre os séculos XV e meados do XX, o Império Britânico foi o maior poder global na história. Estendeu-se pouco mais de um quarto de toda a área terrestre do planeta, cerca de 38 milhões de Km2 e governando sobre uma população de quase 600 milhões de pessoas. Concentrando seu poder nas relações comerciais com suas colônias, os ingleses permitiam que a produção local se dedicasse a um ou poucos produtos, como forma de aumentar seu poder, e conseqüente enfraquecimento e dependência das colônias. Promoviam muito pouco desenvolvimento às colônias, implantando alguma infra-estrutura local que apenas beneficiava aos interesses colonialistas. Na África ou nas regiões tropicais, exploravam tão somente matérias-prima o que restringia ainda mais as opções de comércio dessas colônias. Pior de tudo era a política colonial britânica, que incluía a manipulação de conflitos nas populações dominadas, implantando o divisionismo étnico/racial, religioso e social, conferindo às elites locais uma falsa idéia de prestígio, como forma de, com a colaboração destas, subjugar o restante do povo. Essa era a famosa política do “dividir para governar” e que resultava na impossibilidade de união nacional contra o poder invasor. Também fazia parte da estratégia de dominação inglesa o menosprezo e humilhação das tradições locais, a promoção da desestruturação de qualquer identidade cultural e a promoção da cultura inglesa, como forma de estabelecer na mente dos colonizados a idéia da supremacia de tudo que identificava os ingleses e negando, ao mesmo tempo, qualquer possibilidade de acesso dos colonizados à essa cultura. As colônias do Império Britânico incluíam a India, Ceilão, Singapura, Hong Kong. Malásia, Irlanda, Escócia, Filipinas, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Nigéria, Egito, Etiópia, Zâmbia, Honduras, Bahamas, Serra Leoa, Zimbábue, Rodésia, Quênia, Ghana, Zanzibar, Jamaica, Tinidad-Tobago, Guiana Inglesa, Barbados, Cayman, Butão, Burma, Iran, Iraque, Líbano, Kwaite, Nova Guiné, Fiji, Suriname, Havaí, Afeganistão, República Dominicana. A Arquitetura imperial britânica é uma clara demonstração da hegemonia e poder que o império queria demonstrar. ========================================================================
Arquitetura do Vaticano
O Vaticano é o menor estado independente do mundo. Com apenas 0,44 Km2, localizado às margens direita do Rio Tiber. Em 320-27 DC. O imperador Constantino construiu uma basílica no local destinado a marcar a tumba de São Pedro. Por volta do século XV, o local estava em ruínas e foram feitos planos para reformas e expansão do edifício. O pontífice Julius II (papa de 1503-13), conhecido como o Papa Guerreiro, era uma pessoa difícil, com um ego próprio dos imperadores, que costumava liderar pessoalmente as tropas em guerras para defender as terras pertencentes aos papas, e que mudaria para sempre o Vaticano. Julius decidiu demolir a basílica de São Pedro construída por Constantino e a reconstruiu por completo.
Basílica de São Pedro Houve muitos protestos visto que a construção demolida datava dos primórdios do cristianismo e, pensavam muitos, deveria ser preservada. Julius requisitou os trabalhos do arquiteto Donato Bramante que foi sucedido na tarefa por Raphael, Antônio de Sangallo (o jovem), Baldassare Peruzzi e finalmente Michelangelo. Segundo a visão de Julius, a basílica deveria refletir a glória do cristianismo sobre os pagãos, deveria imprimir reverência, medo e humilhar todos que nela entrassem, como forma de estabelecer a supremacia e grandeza da Igreja, ao invés de inspirar os verdadeiros ideais que norteavam o cristianismo, como foi a regra de outras basílicas católicas, como Chartres, Notre Dame etc. Incorporava elementos do glorioso passado de Roma, enaltecia a arquitetura do poder imperial de Roma, agora ( sutil ironia) submetida à supremacia e poder do catolicismo ! O centro mundial do Catolicismo, o Vaticano, tem na Basílica de São Pedro seu símbolo maior muito embora não tenha sido construída como expressão de religiosidade ou louvor à Divindade, mas como uma demonstração do poder da Igreja.
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O Poder Econômico
As grandes obras, os grandes prédios projetam-se para o alto como um phalus erectus consolidando o orgulho e agressividade do ego masculino. Centros urbanos colossais como Nova Yorque, Tóquio e São Paulo são verdadeiras "florestas" de concreto com prédios de dimensões gigantescas, o que bem ilustra essa tendência arrogante e agressiva típica de demonstrações de poder, nesse caso, o poder econômico. O Empire State Building, em Nova Iorque, foi o primeiro edifício com mais de cem (102) andares. Um assombro à época em que foi construído (1931).
Empire State Building Atentado ao WTC, em 11 de Setembro de 2001
As torres gêmeas do World Trade Center (WTC) que significa Centro Mundial do Comércio simbolizavam o poder empreendedor do capitalismo americano e concentravam os escritórios de algumas das maiores e mais influentes corporações comerciais do mundo. É a arquitetura a serviço do poder econômico. O atentado contra o WTC foi um golpe muito bem sucedido apesar do alvo não ser uma região ou cidade mas um símbolo e isso alterou de modo significativo o comportamento da grande maioria dos americanos e afetou também boa parte da população urbana no mundo inteiro. Sabemos como os símbolos estão enraizados na psique das pessoas. Por esse motivo, o golpe assumiu proporções bem maiores que a tragédia em si. ========================================================================
Poder x
Estética
Aos olhos, a beleza e refinamento sobrepõem-se à força e ao poder. O simbolismo do poder é unidimensional (na verdade unidirecional) e autocrático, por traduzir apenas isso: o poder. Não induz à outras percepções e reflexões. É inerentemente impersonalista e não deixa, pois, escolhas à interpretações. O simbolismo democrático da beleza, por outro lado, reflete a diversidade de valores, pois não sendo imponente, evoca diferentes sentimentos positivos e permite várias percepções e interpretações, valorizando o individualismo. A Arte pela arte, desprovida das imposições inerentes às tendências político-partidárias, permite que as pessoas sintam e tenham suas próprias emoções e interpretações.
Palácio do Planalto Na Arquitetura não há de ser diferente. Pois embora tendo o utilitarismo como princípio, jamais deveria abrir mão de sua verdadeira essência, a Arte. Temos um exemplo disso aqui no Brasil, na disposição arquitetônica original de Brasília, que pela suavidade das linhas evoca ideais humanistas que só a beleza em si, sem qualquer traço de poder e força, poderia sugerir. A Natureza nos dá o exemplo da água que sendo um elemento de liquidez inigualável, pode, não obstante, assumir força e grande poder destrutivo. O arquiteto deve buscar na mesma Natureza, princípios que norteiem sua criatividade ao utilizar-se de elementos pesados como a pedra, o aço e o concreto armado, emprestando-lhes suavidade (na harmonia das linhas e formas) e imponderabilidade, na sutileza dos apoios nos pontos de equilíbrio.
Recife, 08/04/2006
J.R. Araújo e-mail - zecaro108@yahoo.com.br
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