Retornar para Mistérios

 

                                                                  

                                                                                                                                                                           J. R. Araújo

 

 

Assombração é tipo da coisa que ninguém quer pessoalmente comprovar. Morre-se de medo. Nem existe prova científica ou dados comprobatórios. Alguns acreditam, outros não. TODOS, entretanto, querem manter-se bem distantes do assunto . . . por via das dúvidas.

Assombrações, como fenômeno ou folclore, fazem parte do patrimônio cultural de todos os povos, quer sejam das áreas urbanas, rurais, áreas silvestres ou praieiras. Estão bem enraizadas no imaginário popular e somente há alguns poucos anos passaram a interessar estudiosos, cientistas e eruditos. Para o pesquisador sério, muito pouco há de fazer, além de confiar nos relatos daqueles que testemunharam ou de terceiros que ouviram dos próprios protagonistas. Há de se separar as estórias conforme o grau de confiabilidade na pessoa de quem relata, detalhes circunstanciais.

A primeira estória eu ouvi contada por alguém, que agora não lembro mais. Algum tempo depois, pude comprová-la diretamente com seu protagonista, um vigilante corpulento, conhecido pelos amigos como Paulão. A segunda estória aconteceu duplamente, com pessoas próximas. A terceira me foi contada por um taxista amigo, Zé Cearense  e  a quarta, comigo mesmo, de uma forma bastante curiosa.

 

 

                                             Negócios do outro mundo

 

 

Esta aconteceu nas dependências de estabelecimento bancário de renome nacional e envolveu pessoa de uma empresa local de vigilância.

Paulão é vigilante patrimonial há muito tempo, experiente, dedicado, gosta do que faz. Num tipo de serviço em que, além da inteligência, calma e sangue frio, a vantagem do porte físico também é uma qualidade desejável, ainda assim, entre grandalhões, Paulão se destaca dos demais; daí o apelido, que não deixa dúvidas quanto ao seu tamanho. Bem humorado, destemido, ele era o último a visitar o setor de empréstimos especiais, no segundo andar, em uma das muitas agências recifenses desta importante instituição financeira. Todas as tardes, às cinco em ponto, Paulão verificava as janelas, cortinas e todos os computadores (por vezes algum empregado descuidado deixava uma CPU, um monitor ou uma impressora ligados). Estando tudo em ordem, apagava as luzes, fechava as portas de vidro temperado e levava as chaves à tesouraria. Fazia essa rotina como parte de suas muitas tarefas diárias na segurança interna do prédio.

Uma tarde, como todas as outras, Paulão brincou com os colegas, fêz algumas piadas, passou na copa do segundo andar, pegou um copo de água gelada, então foi na tesouraria e ouviu do tesoureiro que na sala ao lado todos haviam saído, um dos gerentes foi o último e o avisou. Ao sair pelo corredor, cruzou com o gerente que sorrindo disse haver retornado à sala, pois fôra pegar as chaves do carro, esquecidas numa das gavetas de sua mesa de trabalho. Cumprimentaram-se com um "até amanhã" e Paulão entrou na imensa sala. Tudo estava em ordem, e procedeu em apagar as luzes, quando notou que uma das cortinas estava parcialmente aberta, deixando na sala uma certa réstia de luz, vinda do sol da tarde. Deu os primeiros passos, para adentrar na sala, quando viu uma senhora que passava ao largo do salão, passos firmes e parecia sequer notar a presença do vigilante. Não era possível, pensou o vigilante, àquela hora, quase duas horas após ter-se encerrado o atendimento ao público !  Uma cliente desavisada . . . 

Preocupado chamou-a: Senhora ! Senhora ! Ninguém pode estar aqui a esta h . . . 

A mulher que parecia não ouví-lo, foi até um canto da sala e retornou como se estivesse andando de um lado ao outro, alheia a tudo, imersa em seus próprios pensamentos. Ao passar novamente em sua frente, Paulão a chamou mais uma vez: Senhora ! No que ela de pronto pareceu ter saído de seus pensamentos, girou nos calcanhares e procedeu em sua direção. Só então, o Paulão notou algo estranho, muito estranho: a mulher era extremamente pálida, envolta numa leve névoa azulada, sorriu, veio em sua direção e, antes que ele se afastasse dando-lhe passagem, ela apressou o andar e passou por dentro dele, causando-lhe uma horrível sensação. Paulão ficou confuso por uns segundos, olhou para trás de si e viu a mulher desaparecer. Foi isto a única coisa que viu, antes de perder os sentidos. Passado algum tempo, o tesoureiro foi verificar o motivo de sua demora em trazer-lhe as chaves e, bastante surpreso, encontrou-o caído ao chão.

As conseqüências foram um constrangimento ao Paulão. O grande susto, seguido de desmaio, causou-lhe um natural afrouxamento intestinal. Os colegas tiveram que levá-lo, com dificuldade, aos banheiros onde o ajudaram a se recompor. Nos dias seguintes ele requisitou licença médica, pois ficara em estado de choque.

 

 

O Paulão ainda trabalha na mesma agência onde o fato ocorreu, continua bastante calmo e corajoso. mas evita ir ao segundo andar, especialmente na sala de empréstimos especiais. Atualmente estuda Teologia em um seminário evangélico. Um amigo que trabalha na mesma agência que o Paulão, foi quem arranjou nosso encontro. De início, ele ficou muito reticente em confirmar o ocorrido. Depois de me estudar atentamente (acho que ganhei sua confiança), não somente confirmou o que aconteceu, como repetiu a estória até onde pôde vivenciá-la.

A parte após o desmaio, foi-me contada por seus colegas vigilantes. Exigiu apenas que eu não mencionasse o nome do banco, nem a empresa de segurança na qual trabalha e muito menos seu nome (condições que atendi de pronto), pois não fica muito bem a um estudante de Teologia e futuro Pastor Evangélico sair por aí, contando estória de assombração . . .

 

 

                                                       Em boa companhia

 

 

Entre os anos 1920-1930 fervilhavam inúmeras manifestações políticas por todo o país. O Tenentismo era um movimento de insurreição político-militar que causaria muitas rebeliões e que se estenderia para além dos anos 30. Foram os anos da famosa Coluna Prestes (1925-27), movimento que cruzou diversos estados da União, de inspiração tenentista e liderado por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes. Anos em que as forças militares de todo o país estavam em constante alerta. Numa dessas ocasiões, aqui em Recife, imperava o toque de recolher, que proibia qualquer civil, ou militar sem autorização, de transitar pelas ruas da cidade além das 21:00 horas. 

Disso estava bem ciente Francisco Caetano, jovem, impetuoso, bonitão, alegre, boêmio, temente a Deus e observador das leis dos homens, mas que não perdia uma festa ou umas horas de dança por nada deste mundo. Era uma sexta-feira e saiu do trabalho direto para a casa de uma gente amiga, num desses sambas de roda, onde se podia dançar muito ao som de pequeno grupo musical, muita cantiga e mesa farta.

Era uma festa mais para os vizinhos, Francisco, entretanto, era o único que morava mais distante, em outro bairro, pois fora convidado pelo amigo e colega de trabalho, que era filho dos donos da casa. Para que pudesse permanecer por todo o tempo da festa, o amigo também convidou-o para ficar na casa até o amanhecer, pois assim, não teria que se preocupar com o toque de recolher. Francisco concordou.

Por volta da meia-noite a festa estava em seu final e, pra surpresa do amigo, Francisco decidiu que iria dormir em sua própria casa. Não queria incomodar aquela gente amiga, de tão boa vontade. Nada do que o amigo dizia, demoveu-o de seu intento. Depois de muita conversa, o amigo não conseguiu convencê-lo, e, ao amigo e seus familiares, apenas restou aconselhar ao jovem convidado que evitasse as ruas principais. Francisco agradeceu a hospitalidade, deu boa noite e partiu. Afinal estava no Rosarinho e não estava tão distante assim de onde morava, lá pras bandas da Cruz Cabugá, próximo a Santo Amaro. Finalmente chegou na grande rua, onde hoje se encontra a Avenida Norte. Caminhou mais um pouco e teria que cruzar uma ponte que cortava o Canal do Tacaruna. Ao se aproximar, notou que a ponte estava vigiada, por militares do Exército ou da polícia, não sabia, pois estava ainda um pouco distante. Verificou que não podia mais retornar, pois fora visto e se tentasse voltar levantaria suspeitas. Decidiu continuar em frente, seria interrogado, e certamente seria preso. Começou a rezar, pedindo proteção, numa oração antiga, que invocava a intervenção das almas protetoras.  Ao se aproximar da ponte e dos militares, certo de que seria parado, cumprimentou os soldados com um simpático “Boa Noite”, quem sabe isso ajudaria? Os soldados olhavam-no intrigados, respeitosamente responderam-lhe o cumprimento, levantaram a barra que servia para impedir a passagem e sorriram em sua direção. Francisco não estava muito à vontade, pois desconfiava de tamanha cortesia. Continuou andando, passos firmes,  disfarçando o medo de ser parado. Ao andar alguns passos, ouviu um dos soldados comentar em alto e bom som: Como pode um homem sozinho a esta hora, acompanhado de tanta mulher ?  Vixi ! Um homem e mais de dez mulheres ! Deixa ele passar, não deve ser perigoso . . . e os outros concordaram, em gargalhadas, gracejos e comentários, pois invejavam a sorte de Francisco, que olhava discretamente ao seu redor, e via que estava andando sozinho !

Agora ele tinha uma parte do trajeto em que teria que andar por um lugar mais escuro, lugar ermo. Antes suava de medo dos soldados, medo de ser detido, interrogado e preso, mas agora, suava muito mais e seu medo, bem mais intenso, era por outros motivos . . .

Francisco foi o segundo esposo de minha avó Dona Rosemira, depois que ela ficou viúva. Ele era, portanto, o padrasto de minha mãe. Todos nós o tínhamos em grande estima, era muito querido e o considerávamos nosso avô materno.

Muitos anos mais tarde, mais de sessenta anos depois, esse fato se repetiria na família, agora com uma de minhas irmãs.

M. L. trabalhava como supervisora pedagógica na Secretaria de Educação do Estado. Quando voltava prá casa, era sempre por volta das cinco ou seis da noite. Saltava do ônibus na parada próxima do viaduto que cruza a Avenida Caxangá. Tinha que passar por baixo do viaduto, local mal iluminado, embora nesse horário fosse bem movimentado.

Certa vez, todavia, não havia muitas pessoas passando por ali, e ao fazer o trajeto, notou que dois sujeitos mal encarados que estavam sentados, levantaram-se e caminharam em sua direção. Sentiu que seria assaltada. Religiosa, começou a orar com fervor. De repente os dois sujeitos se afastaram para o lado, como a dar-lhe passagem, mas o fizeram de forma exagerada e um deles comentou: Como é que surgiram tantos homens de repente ? Acho que eles estavam atravessando a rua, com os carros parados no semáforo e surgiram por entre os carros ! (completou o outro). M. L. andou com pressa, muita pressa, surpresa, assustada e agradecida pela inesperada ajuda, embora com muito medo dos bons cavalheiros que a acompanhavam, mas que não os conseguia ver.

  

 

                                                                        

 

Viagem inusitada 

 

 

Zé Cearense é um taxista, casado, mora em Recife  onde também moram seus pais. Todos os seus irmãos e irmãs vivem no Ceará. Certo dia, ele recebeu um telefonema informando-o acerca da internação em hospital particular de um de seus irmãos. Família unida, ele logo seguiu viagem rumo à Juazeiro do Norte, sua cidade natal, para prestar solidariedade e ajudar no que pudesse, especialmente com ajuda financeira. Partiu de Recife, às 18:00, em seu táxi. Saiu de Pernambuco, cruzou todo o estado da Paraíba e viajou por toda noite pelas estradas do Rio Grande do Norte. Já era tarde da noite, estrada escura, dirigia com cautela, pois a escuridão era total, e à sua frente, apenas o asfalto, iluminado pelos faróis de seu carro. Era um viajante solitário, e talvez tenha cruzado com dois ou três outros veículos, vindos em direção contrária. O pára-brisa era constantemente bombardeado por milhares de pontinhos brilhantes. Eram os muitos besouros e insetos, o que o obrigava a dirigir de vidros fechados.  Lá fora, a vegetação era típica da caatinga do semi-árido nordestino, muito calor durante o dia, com queda brusca e acentuada da temperatura à noite, o que o fazia manter o ar condicionado do carro apenas renovando o ar. Passava pouco mais de uma hora da madrugada, subiu uma suave colina e ao iniciar a descida o carro começou a ziguezaguear na pista, sem controle, indo de um lado a outro. Tentava controlar a direção a todo custo, no braço e pensou que um dos pneus houvesse estourado. Mas que azar, logo ali ! Naquela escuridão, quando os faróis apenas iluminavam a parte dianteira do veículo. Não estava com a lanterna de mão, como trocaria o pneu furado ?

O carro diminuiu drasticamente a velocidade, aproximou-se do acostamento e quase parando, viu algo, como se fora um grande saco plástico branco voar em sua direção e adentrou no seu carro fazendo um zumbido típico de uma rajada de brisa forte e um frio esquisito. (Como ?) Os vidros estão fechados e por que o ar condicionado de súbito começou a esfriar ( ? ) – pensou ele.  

O carro normalizou o trajeto na pista, estava estranhamente sob controle e agora rodava em velocidade normal, como antes. Ao olhar para o lado, entretanto, Zé Cearense tomou um tremendo susto, que logo foi substituído por um imenso sentimento de terror. Paralizado, sem fala, sem ação, viu que a seu lado, na poltrona do passageiro estava uma mulher, estranha mulher, muito pálida, cabelos desalinhados que encobriam parte do rosto, calada, olhando para a frente. 

 

     

Foi tomado de súbito por um calafrio, arrepiou-se por todo o corpo, sentiu os cabelos ficarem em pé. Apenas conseguia ver parte do rosto, e as mãos, colocadas ao colo e os pés descalços. O Zé estava no limite do terror, não conseguia raciocinar, respiração difícil, ofegante, pensou em parar o carro e sair correndo, gritando. Mas notou que não tinha o controle do veículo, estava numa parte reta da estrada, que não exigia muito da direção, todavia, não conseguia diminuir ou aumentar a velocidade, o que falar de parar o carro ! Respirou fundo, tentou olhar novamente para a estranha passageira, mas agora nem isso conseguia, todo seu pescoço estava enrijecido, não conseguia virar-se para o lado. O carro rolava na pista já por algum tempo, e ele pôde enfim criar um pouco de coragem. Com voz trêmula e falha, conseguiu dizer a única coisa que lhe veio à mente: Louvado seja Deus !    -   Depois disso, sentiu mais um pouco de coragem, um pouco mais de paz. Ainda com voz trêmula acrescentou, meio indeciso: se a senhora for do bem, eu a levarei onde quiser . . . Não obteve qualquer resposta. Não sabe quanto tempo estava naquela situação, quando finalmente avistou uma placa que indicava um Posto da Polícia Rodoviária a 200 metros, na divisa entre Rio Grande do Norte e Ceará. Neste momento, o carro fugiu-lhe ao controle por completo, e recomeçou o movimento de zigue-zague de um lado a outro da pista. Sentiu que algo pulou do carro, num zumbido de vento saindo, olhou para o lado e a passageira tinha-se ido ! Agora o terror havia retornado em dobro. Avistou o Posto Policial, quase sem diminuir a velocidade, adentrou no estacionamento do mesmo e, da forma estabanada como chegou, fez com que dois (dos quatro) policiais de plantão se aproximassem, cuidadosos, segurando suas armas nas mãos. Saiu do carro em desespero, com as mãos levantadas, deitou-se por sobre o capô dianteiro do carro totalmente transtornado. Ao verem que ele não oferecia nenhum perigo, os policiais se aproximaram e perguntaram-lhe:  

 

__ Alguém o estava perseguindo ? -- ele negou com movimentos de cabeça; 

__ Alguém tentou lhe assaltar ? -- novamente ele negou; 

Os policiais se entreolharam e um deles perguntou: 

__ Você deu carona a uma mulher estranha, por acaso ? 

Nesse momento o Zé irrompeu em nervoso e incontido choro, trêmulo assentiu que sim. Os dois policiais, agora, tratávam-no com certa atenção, delicadeza até. Pegaram-no pelo braço e o conduziram para dentro do Posto. Lá havia mais dois policiais. Esses trocaram algumas palavras com os dois primeiros. Ofereceram-lhe café. O Zé pediu água. Trouxeram-lhe água gelada . . . era a água mais gelada que ele bebeu em toda sua vida. Isso fê-lo lembrar do frio que sentiu, na presença da estranha mulher. Novamente se arrepiou. Os policiais lhe contaram que há muito tempo ocorreu um sério acidente envolvendo um carro e uma caminhonete, na descida da colina. Na ocasião o socorro veio dos policiais do posto. Nenhum sobrevivente entre os passageiros do carro. Isso, que acontecera com o Zé, era uma situação um tanto freqüente, a qual eles estavam acostumados, por ter acontecido com muitos viajantes noturnos solitários, embora nenhum deles, policiais, tenha pessoalmente visto a misteriosa mulher. Tinham até uma cama de campanha, feita de lona, reservada para essas ocasiões, pois, na maioria dos casos, os aturdidos motoristas ficavam tão amedrontados e assustados, que não conseguiam continuar a viagem, na noite, apenas ao amanhecer, a sol pleno.

Este evento me foi relatado pelo próprio Zé Cearense, taxista amigo, que ao me contar a estória, ficou visivelmente transtornado, com os pêlos dos braços e os cabelos arrepiados. Ninguém consegue simular arrepios, e, por isso, acredito em sua estória. 

 

 

                                                                                     Esta foi comigo !

 

    

Eu vinha de uma visita, na casa de amigos. Era uma noite de algum sábado, talvez em 1999, talvez no ano 2000 . . . Eu estava em Boa Viagem, voltando pra casa. Passava da 22:00 horas. Caminhava para a Avenida Domingos Ferreira. Atravessei as faixas do lado que levavam ao subúrbio, parei no estreito canteiro central e finalmente atravessei o lado onde o trânsito fluía no sentido contrário, e que levava ao Centro. Caminhei num pouco mais, pela calçada lateral até chegar à parada de ônibus.

O Ponto de parada estava mal iluminado, havia uma senhora, a única presente, além de mim. Aparentava quase sessenta anos. Ela não percebeu minha chegada. Quando se virou e me viu, tomou um grande susto. Eu cumprimentei-a com um “Boa Noite” ao qual ela respondeu, ainda assustada. Com o propósito de acalma-la disse-lhe de maneira educada e com um leve sorriso:

__ Desculpe-me pelo susto

Ela pareceu aliviada, e me falou

__ Por  nada, é que eu estava preocupada, olhando na outra direção e não vi quando o senhor chegou 

Então ela começou a falar como as pessoas estavam amedrontadas e inseguras devido à violência e aos muitos assaltos a qualquer hora do dia, imagine àquela hora. 

Já estava ali há alguns minutos e seu ônibus ainda não havia passado.

  Ela não se dirigia ao centro, estava esperando uma daquelas conexões bairro-a-bairro.  Falou rapidamente de uns casos que tinham acontecido com pessoas conhecidas e do pavor que tinha em estar na rua, mesmo logo após escurecer, quanto mais após as 22:00 horas !

Em dado momento, perguntei-lhe se ela se sentia segura quando entrava em sua casa. Ela disse que sim, sentia-se bastante segura quando chegava em casa. Perguntei-lhe se ela tinha fé em Deus. Ela me falou de seu fervor, de sua condição de católica praticante. Então eu completei:

__ Se a senhora tem fé em Deus e se a senhora sente-se segura ao chegar em sua casa, por que deveria ter medo estando na rua, uma vez que o mundo inteiro era a casa de Deus, e somos todos seus filhos. Estar no mundo é estar em casa, na casa do nosso Pai.

Falei demonstrando firmeza, convicção, de maneira pausada, e gentil. Ela ficou me olhando por um instante e um sorriso iluminou sua face.

__ Eu nunca ouvi algo assim -- ela afirmou.

__ Nunca havia pensado nisso antes. Faz sentido e é confortador. -- Completou, agora já mais calma e confiante. 

Então continuei nessa mesma linha de conversa, estendendo para outros assuntos, salientando que realmente nunca estamos sozinhos e quem assim vive nunca tem medo, embora seja  sempre cuidadoso. 

Alguns ônibus passaram e em dado momento ela me perguntou qual ônibus eu estava esperando. 

__ Qualquer um que esteja indo ao Centro -- respondi.

__ Mas já passaram dois, indo ao Centro -- ela disse. 

No que ela voltou a se mostrar um pouco preocupada, ao que lhe falei que só pegaria meu ônibus após ela ter seguido viagem, quando o seu chegasse. Ela disse que não precisa eu me importar, e eu disse-lhe que estava tudo bem, não seria nenhum incômodo. Agora plenamente à vontade ela conversava e ficamos assim, numa conversa realmente leve e agradável. Após mais de trinta minutos de espera, e boa conversa, o ônibus que ela tomaria chegou, ela foi até a ponta da calçada, pediu parada e subiu. Nesse meio tempo, recuei um pouco e me encostei no tronco de uma acácia próxima, das muitas que adornam a avenida. Após subir no ônibus, ela olhou para a parada, parecia procurar algo. Eu estava encostado, por trás do tronco da árvore, imerso em outros pensamentos, mas continuei olhando para o ônibus. A mulher olhava curiosa de um lado para o outro, foi até a catraca do cobrador, parecia estar falando algo da parada. Gesticulava, apontava para a parada. O ônibus deu uma breve partida, e parou logo, a mulher agora parecia gesticular e falar com veemência. O cobrador e uma ou duas pessoas colocaram a cabeça para fora, pela janela, e voltaram-se para dentro. A mulher de repente veio até  o pára-brisa traseiro, olhava para trás, veio até os bancos da fileira de trás, chegou até a subir em um deles e colou o rosto no vidro. Eu continuava atrás da árvore, curioso sobre o que ela estaria fazendo, ou falando. Estava muito desligado e, na calçada semi-escura, por trás de um tronco de árvore, olhava, sem ser visto. Não pensava muito, nem estava tentando entender a agitação daquela senhora que, por alguns momentos, eu aparentemente conseguira acalmar. O ônibus finalmente partiu.

Fiquei pensando sobre aquela mulher, de conversa agradável, mas de comportamento agitado. De repente um pensamento esquisito se me chegou: êpa ! Aquela senhora estava procurando por mim ! Foi isto ! Ela não me via. Aliás, nem me viu quando cheguei, e ao subir no ônibus, não mais me viu na parada. Tínhamos conversado sobre coisas boas, ela tinha se acalmado, demonstrou, inclusive, confiança, saindo da defensiva, do estado de medo e passara a conversar alegremente. Eu lhe falei sobre coisas bonitas, sobre coisas da fé. Agora o que ela estaria a pensando ?

Quanto mais pensava no assunto, mais entendia o comportamento dela, no ônibus. Talvez ela agora estivesse achando que tinha tido um encontro sobrenatural. Um espírito de luz, talvez uma espécie de anjo ! Em sua experiência, eu sugira do nada e desapareci tão de repente quanto cheguei, assim no nada !

 

Casos de assombração, são eventos bipolares, nos quais existem a figura de quem vê (protagonista) e a de quem se mostra (assombração). Este caso que aconteceu comigo, certamente não invalida os anteriormente narrados. Embora não se trate de um caso genuíno, é, todavia, um caso verídico; trata-se, podemos dizer, de um caso unilateral de assombração ou de genuinidade relativa. Casos sem explicação, podem ser agrupados entre os casos genuínos.

Certamente essa senhora acredita que tenha protagonizado uma experiência sobrenatural. Se nosso encontro foi positivo, se serviu para aumentar-lhe a fé, realmente não gostaria que ela viesse a ler este meu artigo. Para ela, pode ter sido um belo caso, dada as circunstâncias. Para mim, foi apenas uma conversa agradável, onde procurei ajudar uma pessoa aflita. Nada além disso. Entretanto, incomoda-me, mesmo erroneamente, ser confundido com um espírito do bem, um anjo ou um fantasminha camarada. Eu, hein ? ! ! ! . . . (tóc, tóc, tóc na madeira) . . . Não por medo ou superstição, mas por convicção íntima de não ter o menor talento para desempenhar esses tipos de personagens. Imagina !

 

Recife, 

15/03/2008

 

J.R. Araújo 

e-mail -  zecaro108@yahoo.com.br

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Figuras do artigo:

Animação do vulto - ideariumperpetuo.com (J. R. Araújo)

Mulher no carro - ideariumperpetuo.com (J. R. Araújo)

 

 

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