|
Retornar para Artes


J. R. Araújo
Não há qualquer exagero em
dizer que a Arte Barroca é reacionária. Como movimento, o Barroco surgiu
como uma contraposição à Reforma Protestante iniciada por Martinho
Lutero. O cânon promulgado no Concílio de Trento ( 1545-63 ) iniciou a
Contra-Reforma e determinou que as pinturas e esculturas representativas
nas igrejas apelassem para os sentimentos e mentes dos menos
intelectuais, das pessoas simples, que estavam mais vulneráveis a uma
exposição da retórica luterana e que as manifestações artísticas fossem
empregadas primariamente como instrumento de propagação da fé cristã e
da doutrina da Igreja Católica. Assim, os elementos estéticos desse
movimento serviriam à popularização das artes como instrumento para a
divulgação das doutrinas católicas, frente à expansão das idéias
protestantes.
Do ponto de vista prático,
entretanto, o período barroco teve início em 1580 na Itália e logo
desenvolveu-se na Espanha e Portugal (países predominantemente
católicos), e desses países se propagou para todos os centros culturais
da Europa e do Novo Mundo. Como movimento, perdurou até cerca de 1756,
quando foi sucedido pelo Classicismo. O termo barroco significa detalhe,
saliência ou imperfeição. Originou-se da frase portuguesa "perola
barroca (irregular)", usado para
indicar uma pérola de forma irregular,
de textura áspera e cheia de imperfeições
ou desprovida da
esférica, . Isto não quer dizer que a
arte barroca pudesse admitir imperfeições, mas tão somente uma alusão à
sua riqueza de detalhes. Sabe-se, todavia, que nesse período estilístico
riquíssimo da História Ocidental, o termo barroco nem era utilizado ou
conhecido por aqueles que fizeram o movimento. Tudo indica que essa
denominação seja uma inserção posterior que, de início, tinha uma
conotação pejorativa, devido ao abuso dos detalhes, ao excessivo apelo
dramático/emocional, ao emprego de elementos estéticos rebuscados,
contrários a racionalidade e sobriedade do Renascimento.
Embora na origem, o barroco
tenha surgido para elevar o fervor religioso, logo atraiu a atenção da
nobreza e da aristocracia, que viam no estilo possibilidades de
auto-promoção e engrandecimento. Assim surgiram temas heróicos, míticos
e mitológicos com forte apelo ao respeito pela hierarquia e cultivo das
virtudes.
Foi um estilo vigoroso, com
forte fundamento teórico e marcado por características que o
diferenciava bastante do estilo Renascentista. Ao contrário deste, o
Barroco primava pelo emocional sobre o racional, deixando o artista
livre de qualquer regra ou padrão rígidos para obter uma completa
liberdade em sua criação.
Como meio de expressão
artística, os elementos estéticos/filosóficos do Barroco se fizeram
presentes sobretudo na Pintura, Escultura e Arquitetura, mas também com
notável intensidade na Música, Literatura e nas Artes Dramáticas.

O Barroco na Pintura
Essa reviravolta em direção
a um conceito popular nas funções das artes sacras, ao contrário da
abordagem acadêmica e elitista do Renascimento, está na origem do
esforço dos pintores italianos, exatamente aqueles que estavam mais
próximos ao centro de influência da Igreja, Roma. As inovações de
Caravaggio (1571-1610) e dos irmãos Carracci são consideradas as
primeiras manifestações dessa tendência nas artes visuais. Caravaggio
utilizava um plano escuro, por vezes completamente negro, e iluminava os
elementos principais do tema com um impressionante jogo de luz. Essa
disposição conferia realismo e dramaticidade à sua pintura, trazendo os
elementos retratados para o primeiro plano e levando o expectador, com
toda a emoção possível, para dentro da cena.
Michelangelo Merisi da
Caravaggio
*

Catarina de
Alexandria - 1598
Narciso - 1600
*Não
confundir com Michelangelo
di Ludovico Buonarroti Simoni (1475-1564) o famoso pintor, escultor,
poeta e arquiteto renascentista italiano.
Entre a família Carracci de
Bolonha, Itália, destacaram-se Agostino (1557-1602) e seu irmão Annibale
(1560-1609), Antônio (1583-1618) e Francesco (1595-1622) sobrinhos de
Annibale. Ludovico (1555-1619) era primo de Agostino e Annibale. Todos
com importância reconhecida na pintura desse período.
Annibale Carracci
Ludovico Carracci

A Zombaria de Cristo - 1596
Rinaldo e Armida - 1583
No barroco não havia o rigor
geométrico elaborado dos renascentistas. O elemento cênico principal
poderia muito bem nem estar no centro do quadro. Havia sim, uma
preocupação sobre o emocional, habilmente permitido fluir, da cena para
o expectador, nos contornos salientados pela dicotomia luz/escuridão,
pela combinação de cores, pelo dinamismo e movimento, pelas faces e
corpos retorcidos, pela textura da pele viva, tenra ou musculosa, pela
dramaticidade ou pela suavidade, porém sempre a serviço da emoção que
podia gerar. Esta foi a marca registrada na pintura barroca, vista em
sua plena força, também, nos espanhóis Velázques (1599-1660) e Murillo
(1618-1682), nos belgas Van Dyck (1599-1641) e Frans Hals (1583-1666),
nos holandeses Rembrandt (1606-1669) e Vermeer (1632-1675) e no flamengo
Rubens (1577-1640).
Diego Rodríguez de
Velázquez
Bartolomé Esteban Perez
Murillo

Senhora com o Leque -
1583 Meninos comendo frutas -
1570/75 Duas moças na janela - 1570
Nos países de predominância
protestante, como Holanda, Alemanha e a Região flamenga (Flandres,
atualmente na Bélgica), havia uma maior permissão ao livre pensar, e
isso contribuiu para que a pintura se aventurasse por uma visão mais
pertinente aos eventos seculares do cotidiano. Ainda assim, havia essa
tendência religiosa bem próxima das origens do barroco, mas, nesse caso,
o movimento floresceu como instrumento de inspiração cristã, não
necessariamente ligado à doutrina católica.
Clique nas miniaturas ou
nos nomes abaixo para visualizar trabalhos dos pintures
Vermeer
Rembrandt
Rubens

Barroco na
Arquitetura e
Escultura
Nas disposições artísticas do Século XVII, a arquitetura e as esculturas
estão entrelaçadas de tal forma, que se faz necessário analizá-las
conjuntamente. Ambas
procuravam impressionar pela grandiosidade no interior das construções,
evocando as mesma emoções de piedade e fervor religioso característico
do estilo.
As igrejas e
capelas, com suas fachadas relativamente simples, guardavam em seus
interiores toda a grandiosidade nos adornos, capitéis, nas colunas, nos
altares e nichos laterais que finalmente conduziam ao altar principal,
num crescente grandeur, como que preparando o visitante numa
seqüência de surpresas, que o levasse à experiência emocional, à
reverência e ao afloramento ou fortalecimento da fé.
Os arquitetos empregavam
a mesma disposição dualística claro/escuro
nos elementos arquitetônicos, aos quais mesclavam
esculturas
iconográficas ou meramente decorativas
pintadas ou não, combinadas com quadros da pintura representativa
do período. Podemos destacar as esculturas figurativas ou iconográficas,
onde força e dinamismo estão presentes nas formas humanas ou animais. As
figuras humanas representam divindades, santos, membros da nobreza e
aristocracia, heróis nacionais ou mitológicos, dispostos de maneira a
inspirar emoções e valores elevados. As esculturas figurativas barrrocas
eram concebidas para integrarem um conjunto harmônico e combinado com a
arquitetura de tal maneira que não se poderia dizer se elas serviam
como decoração ao edifício ou este foi construído apenas para
abrigá-las. As figuras eram dispostas em grupos ou solitárias, sempre
com o objetivo de causar uma emoção de certa forma planejada. Quando em
grupos, as figuras assumiam uma disposição circular ou espiralada, com
bastante espaço vazio entre elas para serem admiradas a partir de
ângulos diferentes e trazer o observador para o meio da cena.

Com finalidade decorativa,
os artistas barrocos utilizavam motivos florais ou geométricos, com
predominância das curvas e
valorização
do entalhe na construção de altares e nichos, com luxo na decoração e
aplicação a ouro. Várias
técnicas eram usadas, dentre as quais uma, denominada Trompe l'oeil
e ainda de uso corrente, emprega truques de perspectiva,
cores, luz e sombra, para criar objetos ou formas que na verdade não
existem, num interessante e desconcertante efeito de ilusão de ótica. A
expressão Trompe l'oeil é proveniente da língua francesa e
significa 'engana o olho'. Como um exemplo desse truque, temos a
figura ao lado: o que realmente existe é a parede . . . tudo o mais é
pintura !
A nobreza e a aristocracia logo viram na retórica dramática da
arquitetura e arte barroca a oportunidade de igualmente impressionar
visitantes, ao evocar a idéia triunfal de controle e poder.
A simplicidade das
fachadas disfarçavam o que estava disposto nas áreas internas, com
pórticos monumentais, ante-salas e recepções impressionantes que levavam
a outras ante-salas e finalmente à sala principal, onde escadarias
majestosas impunham reverência e poder.
O barroco preocupava-se em
manter a hierarquia vigente na Igreja e no Estado, conferindo poder
absoluto aos papas, aos reis e à aristocracia. Defendia, pois, a
manutenção do absolutismo em ambas as esferas. Como expressão
estilística secular, a arquitetura barroca manifestou-se na forma de
grandes palácios, inicialmente na França, a exemplo do Château de
Maisons (1642) do arquiteto François Mansart (1598-1666), e logo se
espalhou por toda Europa. No Brasil há de destacar o talento
incomum de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho
(1730-1814), arquiteto, escultor, desenhista, construtor e entalhador
maior do barroco brasileiro. Sua obra prima é o conjunto denominado
Os doze Profetas esculpido em pedra-sabão, disposto no pátio do
Santuário de Bom Jesus de Matosinhos
em Congonhas, Minas Gerais.
|
Clique na figura
ao lado para visualizar Os Doze Profetas de
Mestre Aleijadinho e exemplos de fachadas de igrejas com
respectivas decorações internas. |

Música Barroca
Se considerarmos
que o estilo barroco predominou de 1580 até 1756, a denominação "Música
Barroca" surgiu num período posterior, em torno de 1919 por sugestão do
historiador da arte e musicólogo alemão Curt Sachs (1881-1959). Apesar
de que tenham existido compositores de musicalidade tão diversa quanto
os italianos Jacopo Peri (1561-1633) e Domenico Scarlatti (1685-1757) e
o alemão J. S. Bach (1685-1750), há, entretando, que se atentar para as
diferenças marcantes dá música desse período com os períodos anterior e
posterior na história da música, quais sejam: Renascimento e Clássico
respectivamente. Essas diferenças foram suficientes para a identificação
da música desse período, que compartilhava valores estético-filosóficos
e os mesmos propósitos doutrinários e ideológicos das outras artes do
período. Assim fica muito claro definir a música dessa época como sendo
barroca. Houve um notável desenvolvimento da teoria musical, da
tonalidade diatônica e do contraponto imitativo. Foi uma época de
ornamentação musical bem mais elaborada com muitas mudanças na notação
musical. O forte apelo emocional, visando o fervor religioso, fêz-se
sentir na música barroca em perfeita consonância ao espírito da época.
Grandes compositores enriqueceram a música desse período com dedicação e
talento, entre os quais se destacaram os italianos
Alessandro Scarlatti (1660-1725), o compositor e
violinista Arcangelo Corelli (1653-1713) cujo estilo seria adotado como
a técnica de tocar o violino predominante nos 200 anos seguintes, Nicola
Porpora (1689-1767) que seria o mestre de Joseph Haydn (1732-1809),
grande compositor do Período Clássico; o inglês Henry Purcell
(1659-1695), o alemão Gottfried Heinrich Stölzel
(1690-1749) e o francês
Jean-Baptiste Lully (1632-1687).
Muitos são os músicos,
compositores e renomados mestres dessa música estilística que sucedeu ao
Renascentismo. Vivaldi, Handel e
Bach, entretanto, são os maiores e mais completos representantes da
música barroca.
Antonio Lucio
Vivaldi (1687-1741) era um sacerdote católico, nascido em
Veneza e exímio violinista. Foi um compositor bastante prolífico, com
uma obra impressionante, tanto em densidade e importância musical,
quanto em quantidade com a incrível cifra de mais de 500 concertos, 210
dos quais dedicados ao solo para violino e violoncelo, 46 óperas, 73
sonatas, 23 sinfonias e inúmeras músicas de câmara e peças sacras.
Difundiu o concerto grosso, onde mais de um solista alterna com o
restante da orquestra e nesse estilo, sua peça mais conhecida é As
Quatro Estações (1723). Apesar da rígida formação acadêmica, Vivaldi
demonstrava grande alegria em compor, com igual paixão, música sacra e
profana. Era capaz de compor música bem ao gosto popular, o que o
tornaria bastante famoso no seu tempo, dentro e fora da Itália. Bach
recebeu forte influência do mestre italiano, e com freqüência
transcrevia as peças deste, para violino e violoncelo, adaptando-as
para teclas solo e orquestra. Como exemplo disso temos o Estro
armonico (1712), que é um conjunto de doze concertos grosso,
seis dos quais transcritos por Bach para cravo e órgão.
Compôs
notadamente música sacra, com destaque para o oratório Juditha
Triumphans, três Gloria catalogados sob os números RV 588, RV
589 e RV 590 (esse jamais encontrado) e ainda as obras Stabat Mater,
Nisi Dominus, Beatus Vir, a belíssima Magnificat e
Dixit Dominus entre outras.
|
Clique na figura
ao lado para ouvir o seu Gloria mais famoso, o RV
589, composto provavelmente em 1715,
sétimo movimento intitulado Domine, Fili unigenite. |
George
Frideric Haendel (1685-1759) era
filho de um cirurgião-barbeiro que não o queria vê-lo tornar-se músico,
o que não conseguiu inibir o telento natural do menino. Em 1703
transferiu-se para Hamburgo, então o centro teatral e musical da
Alemanha, onde estudaria música com o renomado mestre organista
F.W.Zachau, da catedral de Nossa Senhora, em Halle. Aos onze anos já era
um mestre no órgão, violino, cravo e outros instrumentos e começara a
compor, dominando com desenvoltura a arte da polifonia e do contraponto.
Aos 20 anos de idade, sua primeira
ópera, Almira, foi apresentada com grande sucesso.
Em
1706, viajou à Itália, numa jornada que durou três anos. Entrou em
contato com a música e os mestres italianos, recebendo forte influência
de Alessandro Scarlatti. As suas obras foram apresentadas em Florença,
Roma, Nápoles e Veneza, sempre com
enorme repercussão, obtendo reconhecimento e prestígio. Ao retornar da
Itàlia em 1710, Haendel se estabelece em Hannover como diretor da
orquestra da corte. No ano seguinte viaja à Londres, onde apresenta sua
ópera Rinaldo. Diante do sucesso obtido, é convidado a permanecer
na Inglaterra, com a missão de criar um teatro real de ópera que ficou
conhecido como a Royal Academy of Music. Entre 1720 e 1728,
Haendel escreveu 14 óperas para essa academia, o lhe valeu grande
popularidade em toda a Europa.
Dedicou-se com igual paixão
à composição de óperas e oratórios, estes, entretanto, ocupam lugar
central em sua obra. Compôs 32
oratórios, magníficas peças corais, os quais eram apresentados em
ocasiões solenes por coros grandiosos de várias dezenas de cantores.
Entre seus principais oratórios destacam-se Esther (1718),
Athalia (1733), Saul (1739), Israel no Egito (1739),
Messias (1742), Sansão (1743), Judas Maccabaeus
(1747), Solomão (1748) e Jephtha (1752).
Suas óperas (compôs cerca de
40), apesar de contarem com produções esmeradas nos palcos dos teatros,
especialmente na Royal Academy of
Music,
não tinham a mesma força dramática de seus
oratórios. Podemos destacar as óperas Agripina (1709),
Rodelinda (1725), Ottone e Teofano (1723), Tamerlano
(1724), Orlando (1732), Ézio (1733). Júlio César
(1724) é considerada sua obra-prima no gênero.
Embora tenha se dedicado à
composição de obras vocais, a produção instrumental de Haendel é
considerável: 110 cantatas, 20
concertos, 39 sonatas, fugas, suítes, obras sacras para missas e obras
orquestrais. Haendel teve na fé luterana uma motivação profunda para sua
música religiosa e, assim como Bach, deu maiores dimensões à polifonia
vocal, com base na polifonia instrumental da música para órgão, pois
eram ambos grandes virtuoses desse instrumento.
|
Clique na
figura ao lado para ouvir O
Messias (Abertura) (1741) cuja estréia foi na
Páscoa de 1742, quando o próprio Haendel se apresentou,
tocando ao cravo. |
Johann Sebastian
Bach (1685-1750) foi criado em meio
religioso da Igreja Luterana. Sua música refletia sua devoção e fervor
religioso, com destaque àquelas especialmente compostas para as missas
dominicais, as cantatas. Compôs as famosas paixões, grandes obras para
corais que eram executadas nas cerimônias da semana santa. A
Paixão segundo São João (1724) e a
Paixão segundo São Mateus
(1729) estão entre suas maiores
composições. Bach escreveu em 1731 a Paixão segundo São Marcos
uma peça que embora tenha sua existência histórica bem estabelecida,
permanece como uma obra perdida. Apesar de ser um compositor
protestante, compôs a
grandiosa
Missa em
si menor (1733-1738), imbuído de raro espírito ecumênico. Outras
obras célebres do mestre alemão são as Variações Goldberg,
uma série de trinta variações para cravo publicadas a partir de 1741 sob
o título Clavierübung (Prática para Teclado), que se constitui na
obra mais séria, complexa e grandiosa composta para cravo. Sua Arte
da Fuga, talvez seja sua obra mais representativa do barroco. Contêm
dezenove fugas, variações sobre um tema, repletas de contraponto, que é
uma característica dominante na música barroca. Bach compôs uma série de
trinta Invenções: quinze a "duas vozes" e outras quinze a
"três vozes". Essas últimas, formam o estilo também conhecido como
sinfonia, que não deve ser confundido com as Sinfonias típicas do
Período Clássico. As Invenções, assim nomeadas pelo próprio Bach,
são técnicas compostas com finalidade didática, para treinar a execução
independente das mãos e que desvendam e ensinam de forma simples as
intrincadas nuances da arte musical do contraponto, definidas em temas
de rara inspiração.
Os Concertos de Brandenburgo,
uma série de seis concertos grosso, foram compostos sob
evidente influência do mestre italiano Vivaldi, de quem Bach tinha muita
admiração. Célebres pela forte densidade polifônica, esses concertos
incorporam temas aristocráticos e do folclore alemão, numa bem
balanceada mistura, desprovida de qualquer conotação extra-musical
doutrinária ou ideológica. É a música pela música, numa perfeita
combinação de todos os instrumentos da orquestra. Os Concertos de
Brandenburgo constituem o exemplo maior da genialidade, inspiração e
maturidade musical de Bach. Demonstram
expressividade, fluência, conhecimento e talento musical
dignos do maior músico de todos os tempos.
Mais que tudo isso, é pura sabedoria !

|
Clique na figura ao lado,
para escutar a Invenção nº 06, em Mi maior.
Sugestão: primeira escute-a
concentrando sua atenção na voz principal, executada
pela mão direita. Numa segunda audição, concentre-se
nos movimentos da mão esquerda, que compõem a
segunda voz instrumental. Maravilha ! |

Literatura e Teatro Barrocos
A Literatura barroca foi marcada por um forte senso de
polaridade ou dualismo. Neste aspecto, o conflito maior era entre as
alegrias e dores da existência terrena com as delícias e promessas
espirituais. O confronto entre o prazer maior e a perda final,
configurados como Eros e Tânatos, estava no centro das alegrias e dores
individuais, enquanto o nacionalismo e o universalismo distendiam a
polaridade dos sentimentos coletivos. O conteúdo emocional competia com
o rigor formal. Tudo demarcava o inevitável conflito entre as
necessidades da sociedade versus as do indivíduo. A prosa e a poesia
tinham como característica principal a ênfase na originalidade, com
bastante uso de elementos estilísticos tais como as figuras de
linguagem, notadamente metáforas, hipérboles e antíteses. O objetivo
principal era, como sempre, evocar emoções e permitir o afloramento de
religiosidade e virtudes elevadas bem ao espírito da época, tendo como
plano de fundo a natureza, a história e os dramas e sentimentos
individuais. Os escritores e poetas alcançaram popularidade como nunca
havia acontecido. A Literatura estava na vida do povo, mas nisso ela
não se fez sozinha. Tornou-se aliada inseparável de uma manifestação
artística poderosa, o Teatro.
O Período Barroco foi sem dúvida o período do
Teatro, alimentado convenientemente por sua irmã, a Literatura. Com sua
retórica poderosa, podia tocar fundo nas emoções humanas trazendo aos
palcos o conflito entre os dramas individuais e as demandas da
sociedade. O grande impulso recebido pelo Teatro veio, no início, de uma
fonte inesperada, a Igreja, na figura dos jesuítas. Eles usaram o teatro
como ferramenta pedagógica, com encenações elaboradas, trazidas das
praças para as escadarias das igrejas, palcos improvisados. Nos países
protestantes, a Literatura e o Teatro não seguiram a agenda
contra-reformista da Igreja Católica. Foi exatamente nesses países que o
Teatro ganhou força e independência, deslocando-se gradualmente de uma
abordagem popular rumo a uma linguagem mais intelectual, incorporando a
música, as artes plásticas na confecção de cenários, com uso cada vez
mais freqüente de tecnologias diversas utilizadas para aprimorar a arte
da ilusão e causar mais impacto na platéia, explorando os elementos mais
importantes do diálogo entre o Teatro e essas artes visuais. Na
Inglaterra houve o desenvolvimento das famosas Masques, produções
teatrais luxuosas e bem elaboradas, com custosos cenários planejados e
executados por arquitetos e pintores famosos. A popularidade e força do
Teatro viria a consolidar o termo theatrum mundi (o mundo é um
palco) como o lema da época, pela capacidade do teatro para descrever,
analisar e entender as atividades, emoções, anseios e vivências das
pessoas e dos acontecimentos em suas vidas.
No barroco, a Literatura e o Teatro estão
interligados de tal forma que caso tivessem tomado rumos independentes,
certamente nada seriam. Quase todos os autores nesse período foram
essencialmente dramaturgos. Entre os mais importantes e representativos
podemos citar:
Miguel de Cervantes (1547-1616) novelista e dramaturgo
espanhol cuja obra mais conhecida é Dom Quixote.
William Shakespeare (1564-1616) é o maior poeta e dramaturgo
inglês conhecido pelas peças Romeu e Julieta (1595), Rei Lear
(1603-06), Macbeth (1603-06), Hamlet (1599-1601)
e Sonhos de uma Noite de Verão (1590). Escreveu
38 peças das quais 17 comédias, 10 dramas históricos, 11 tragédias, além
de 154 sonetos, vários poemas e muitos outros trabalhos menores.
John Fletcher (1579 – 1625) foi um dos mais prolíficos e influentes
dramaturgos de seu tempo. Obteve reconhecimento e sucesso ainda em vida
e os críticos de então, consideravam-no (juntamente com Ben Johnson)
como superior ao próprio Shakespeare.
Lope de Vega (1562-1635) poeta, dramaturgo e novelista
espanhol dominou a chamada Era de Ouro do teatro da Espanha. Seus
trabalhos contam La Arcadia (1598), La Dragontea (1598),
El Isidro (1599), La Hermosura de Angélica (1602) e uma
série de sonetos sacros intitulados Rimas sacras (1614).
Ben Johnson (1572-1637) poeta e dramaturgo
inglês, contemporâneo de Shakespeare e durante o período de vida de
ambos era considerado pelos críticos como superior a este. Johnson,
associado ao arquiteto inglês Inigo Jones (1573-1652), produziu e
popularizou o estilo masque, que animava as festividades da
corte dos Stuarts.
Pedro Calderón de la Barca (1600-81) um dos
principais dramaturgos da Era Dourada de teatro espanhol, conhecido por
seus Autos Sacramentales, série de peças religiosas encenadas em
um ato apenas.
Pierre Corneille (1606-84) poeta e dramatista
francês muito importante na evolução da dramaturgia neo-clássica do
Século XVII.
Jean Baptiste Poquelin Molière (1622-73)
dramaturgo e diretor de teatro francês, o maior artista cômico
conhecido.
John Dryden (1631-1700) escritor e dramaturgo
inglês cujos dramas heróicos, comédias e tragédias dominaram os
palcos nos anos que seguiram a restauração da monarquia inglesa (1660)
após o período de guerra civil que assolou a Inglaterra, Escócia e
Irlanda.
Philippe Quinault (1635-88) dramaturgo e letrista
francês que colaborou com Lully nas letras de muitas óperas.
Jean-Baptiste Lully (1637-82) músico e compositor
italiano, que viveu sua vida artística na França, onde se dedicou a
composição e produção de óperas durante três décadas.
Jean Racine (1639-99) o principal dramaturgo
trágico francês do século 17. Phèdre (1677), uma tragédia em
cinco atos, é sua obra mais conhecida.

As artes têm esse poder de comunicar e repassar as
tradições, a cultura e as características de um povo, impregnada, pois,
de nacionalismo. Todavia, sempre foi a ambição maior da arte ser
universalista. Todo artista é um contador de estórias e um narrador da
história, comprometido com a análise, reflexão e entendimento dos
anseios, desejos e expectativas próprios da vida humana. A via media
pode ser o que está escrito num livro ou livreto, o som que emite um
instrumento ou uma orquestra, a representação pictográfica de uma
pintura ou escultura, a magnificência de uma construção ou o palco de
uma apresentação teatral. Ao expectador ou ouvinte, basta admirar e se
inspirar no que o artista teve de melhor, num determinado momento;
sentir uma emoção ressonante, com a que o artista sentiu e desejou
compartilhar, seja essa emoção de alegria, tristeza, medo, amor ou os
sentimentos extáticos e indescritíveis dos mistérios da fé. Hoje,
decorridos tantos anos, podemos não mais nos afetar diretamente pelas
motivações sociais, ideológicas ou religiosas de então, mas, o que
realmente importa, é que diante de qualquer expressão artística do
Barroco sentiremos, ainda , uma forte emoção e isto pela pura e
simples magia da Arte.
Recife,
08/12/2007
J.R. Araújo
e-mail - zecaro108@yahoo.com.br
Créditos
As imagens dos
trabalhos dos mestres pintores apresentadas neste artigo, são
disseminadas livremente na internet, seja em sites comerciais,
educativo-acadêmicos, de organizações não-governamentais ou em blogs
e sites pessoais.
Caravaggio - Santa Catarina de Alexandria
- www.aug.edu
Annibale Carracci - A zombaria de Cristo -
www.pintoresfamosos.cl
Ludovico Carracci - Rinaldo e
Armida -
www.valsesiascuole.it
Murillo - Duas moças na janela -
www.artchive.com
Meninos comendo frutas -
wiikipediia.net
Trompe l'oeil - www.trompe-l-oeil-art.com
Para as peças musicais em MIDI, os
sites consultados permitem o download livre desses arquivos,
desde que não sejam utilizadas com finalidades comerciais ou lucrativas.
Os arquivos musicais aqui contidos estão armazenados como arquivos (bandwidth)
do ideariumperpetuo.com. Não são links diretos aos
sites de origem e, por isso, não configuram o uso indevido da faixa
de acesso (bandwidth) de propriedade exclusiva desses sites.
Vivaldi - Gloria (
Domine, Fili unigenite ) -
www.botproductions.com
Haendel - Messiah ( Overture
) - www.botproductions.com
Bach - Invention nº 06 -
www.bachcentral.com
você é o visitante número

Christmas Tips
T O P O
____________________________________________________
© Copyright
2007/2011 - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução do
texto aqui contido sem a prévia autorização do autor.
|