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Natureza


Borboletas: as
cores da leveza
J. R. Araújo
As
borboletas constituem um importante grupo da família dos insetos e pertencem à
ordem dos Lepidópteros, termo que significa literalmente “asas em
escamas”. As escamas são coloridas e sobrepostas, formando desenhos intricados
de rara beleza. As cores podem ser fortes, suaves, metálicas ou iridescentes,
formadas por diferentes pigmentos e micro-texturas que, devido aos efeitos de
refração e difração da luz incidente, conferem nuances das mais variadas
tonalidades nas asas desse lindo animal.
Como os insetos, têm o
esqueleto por fora do corpo, chamado exoesqueleto, que não apenas forma a
estrutura de suporte, mas também revestem todo o corpo do animal, impedindo a
perda de água, protegendo-as da desidratação total e das pressões ambientais.
Nas regiões tropicais,
encontramos o maior número de espécies e as maiores e mais belas borboletas e
mariposas, visto que o clima quente, a umidade e a grande variedade de plantas
oferecem a elas condições ambientais favoráveis e alimento em abundância.
As borboletas variam em tamanho desde as mais
minúsculas com cerca de 3 milímetros de tamanho Phyllocnistis spp até as
maiores com pouco mais de 30 centímetros Attacus Atlas ou a Ornithoptera
alexandrae com 28 cm de uma extremidade a outra de suas asas.
Como distinguir
entre as borboletas e mariposas ?

Do ponto de vista técnico
não há diferenças entre ambas. Podemos, entretanto, verificar algumas diferenças
estruturais, bem como nos hábitos desses lepidópteros. As diferenças são as
seguintes:
Antenas
- as borboletas geralmente têm as antenas mais longas, de aparência lisa, tendo
as extremidades arredondadas, enquanto as mariposas têm as antenas mais curtas,
grossas e de aparência peluda.
Corpo
- as borboletas têm o corpo mais delgado, as mariposas os têm atarracados.
Asas
- quando em repouso, as borboletas guardam suas asas dispostas para cima,
juntas, enquanto as mariposas dispõem suas asas coladas ao longo do corpo.
Colorido das asas - as borboletas tendem a ter mais
colorido nas asas. Algumas exceções são observadas.
Hábitos - as borboletas são em sua maioria
diuturnas, as mariposas são de hábitos noturnos.
Velocidade de vôo
- as borboletas
podem voar até 20 km/h, enquanto as mariposas podem voar até 40
km/h. A maior velocidade fica por conta da Euschemon ssp que pode atingir
60 km/h.
Estima-se que em
todo o mundo, existam aproximadamente 24.000 espécies de borboletas e 140.000
espécies de mariposas. A região tropical registra a maior densidade desses
insetos, devido às condições propícias que oferece, com uma grande variedade de
plantas, enquanto nenhuma ocorrência é verificada na Antártida.
Além de ser um animal notável, pela beleza e
elegância, as borboletas diurnas são muito importantes como bioindicadores. São
fáceis de serem monitoradas nas suas diferentes e bem definidas fases vitais. As
borboletas são por demais sensíveis às mudanças negativas em qualquer dos
fatores ambientais dos quais dependam. Alimentam-se de plantas específicas e uma
abundância de borboletas de diferentes espécies em uma área ou região indica
existir grande diversidade de plantas neste ecosistema, Uma brusca mudança
ambiental afeta quase que de imediato esses animais e o desenvolvimento regular
de toda uma população de borboletas, ao longo dos anos, indica que o meio
ambiente está funcionando regularmente nesse período.
Ciclo de
Vida 
A transformação da
freqüentemente feia e bizarra lagarta em uma elegante borboleta é realmente um
dos milagres executados pela Natureza.
No ciclo de vida, ss
borboletas processam uma metamorfose completa em quatro fases bem definidas e
bastante distintas como ovos, larvas, crisálidas e adultas.

Ovos de borboleta
Ovos
- após o acasalamento, que pode durar até cerca de uma hora, a fêmea procura as
plantas adequadas para a postura dos ovos. Nesta tarefa, conta com uma peculiar
habilidade das patas, que pode sentir o sabor das folhas das plantas, a
adequação nutritiva e a ausência de fitotoxinas, pois essas folhas serão parte
do cardápio exclusivo das larvas. Não se sabe o número exato de ovos que uma
fêmea pode depositar na parte superior das folhas das plantas escolhidas, mas a
postura pode decorrer em algumas horas ou em muitos dias, e os ovos variam em
tamanho, forma e coloração de acordo com a espécie.

Lagarta / larva da borboleta
Larvas
– ao chegar o momento de saírem dos ovos, os lepidópteros assumem uma forma
larval, as conhecidas lagartas. Estas abrem caminho, comendo as cascas dos ovos
em que estavam contidas, preparam uma espécie de ninho na parte inferior de
alguma folha e de imediato começam a comer as partes vegetais da planta em que
se encontram, cortando-as e mastigando-as com suas poderosas mandíbulas. Devido
a um determinado hormônio que segregam, as lagartas não param de comer; algumas
comem durante o dia inteiro, outras o fazem durante toda a noite. No período
destinado ao descanso, digestão e absorção dos nutrientes, voltam para esse
ninho construído, sob a folha que, curiosamente, evitam comer. São comedoras
vorazes, quase que insaciáveis, pois precisam se alimentar dos nutrientes
necessários para o período de hibernação de sua próxima fase de vida e para isso
necessitam armazenar bastante energia. À medida que a produção desse hormônio
diminui, as lagartas consomem cada vez menos folhas. Quando param de comer por
completo, estão preparadas para a nova fase.

Crisálida

Crisálidas
– também denominadas pupas, é o estágio seguinte, quando a larva procura a
parte inferior de uma folha ou um galho mais resistente onde possa se enrolar
em uma espécie de capa protetora e se transformar por completo. Algumas
mariposas, a partir de uma glândula próxima da boca, produzem uma teia de
material salivar que em contato com o ar adquire consistência de fios muito
resistentes. Tecidos em torno da pupa para aumentar sua proteção, essa capa é
denominada casulo. Algumas espécies são cultivadas para que esses fios sejam
utilizados na indústria têxtil, a produção da seda. Os fios de seda são os fios
que compõem o casulo dessas mariposas. Desde a antiguidade, no Japão e China,
a mariposa parda Bombyx mori (acima) é utilizada na indústria da
seda que é uma fibra natural de proteína, composta de fibrina. A sericina é uma
goma protéica responsável pela união das fibrinas que compõem os fios de seda.
Os filamentos da seda são resistentes e podem ter comprimentos que variam entre
300 a 900 metros! A produção da seda, entretanto, envolve a aniquilação das
crisálidas contidas nos casulos que são colocados, ainda vivas, em água quase
fervente no processo de obtenção dos fios de seda, que depois de tingidos são
utilizados na fabricação de tecidos.
Adultas
– após a metamorfose completa, as borboletas adultas eclodem dos casulos
e esperam horas, para que as asas úmidas e encolhidas endureçam para se
adequarem ao vôo. A partir daí, iniciam a fase de acasalamento. Os machos são
visto, com freqüência, rondando as fêmeas recém saídas da fase de crisálida,
antes mesmo que elas possam adquirir a plena capacidade de voar. Após a
fecundação, as fêmeas procuram depositar os ovos na parte superior das folhas
de plantas hospedeiras adequadas ao desenvolvimento das lagartas. Para garantir
a perpetuação da espécie, as borboletas são dotadas de extraordinária
sensibilidade. Segundo experimentos, podem enxergar as cores com maior
sensibilidade ao vermelho, verde e amarelo, e podem sentir o sabor das folhas
com as patas, o que facilita na procura de folhas de plantas adequados à
oviposição.
Estudos recentes indicam,
também, que as borboletas não têm um padrão de vôo aleatório. A partir de
micro-transmissores, pesando apenas 12 miligramas, colocados nos corpos desses
delicados insetos, cientistas britânicos puderam monitorar e vôo de várias
borboletas. Concluíram que existem basicamente dois tipos de vôo. O vôo rápido,
em linha reta, no qual a borboleta se deslocam em velocidade nas rotas
migratórias, e o vôo lento, em voltas e círculos, com o propósito de encontrar
alimentos, locais para depósito dos ovos e futura hibernação das pupas.
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Os lepidópteros
exploram diferentes recursos alimentares durante seu ciclo de vida. As larvas de
borboletas são tipicamente folívoras, enquanto os adultos consomem alimentos
fluídos, como o néctar que extraem das flores ou o suco dos frutos maduros que
caem das árvores.
Há que
se atentar para o fato de que, no processo evolutivo, a associação de
determinados grupos de insetos (gêneros, tribos, subfamílias etc.) obedece uma
inter-dependência bastante rígida e exclusiva (famílias, gêneros, espécies etc.)
com as plantas hospedeiras que compõem sua alimentação. Além disso, os
micro-habitats dessas plantas fornecem um lugar seguro para a reprodução
e subsistência dos indivíduos e preservação de sua espécie. A interdependência
das espécies de insetos (como polinizadores) e plantas (como fonte de alimento)
é tão sofisticada e exclusiva que o desaparecimento de um grupo compromete
irremediavelmente a existência do outro.
Para ilustrar a
importância desses insetos no meio ambiente e exemplificar o que dissemos acima,
temos o mais famoso dos casos de previsão da existência de uma espécie na
Entomologia.

Angraecum Sesquipedale
com seu rostrellum (tubo)
curvado
para cima
A
mariposa Esfinge de Morgan, originária de Madagascar, tem uma tromba (probóscides)
com cerca de 31 a 36 centímetros de comprimento que a permite coletar alimentos
(néctar) de um tipo de orquídea que foi estudada por Charles Darwin. Em sua
obra, “On the Various Contrivances by Which British and Foreign Orchids are
Fertilized by Insects”, publicada em 1862, Charles Darwin predisse: “ . .
. è surpreendente que qualquer inseto seja capaz de alcançar o néctar . . . Mas
em Madagascar deve existir mariposas com probóscides com uma extensão de 25 a 28
centímetros . . . As políneas não poderiam ser coletadas a menos que uma imensa
mariposa, com um probóscides maravilhosamente longo tentasse sugar a última
gota. Se essa mariposa viesse a se tornar extinta em Madagascar, certamente que
o Angraecum também seria extinto . . .”

Xanthopan coletando néctar
Quarenta anos depois, em 1903,
Walter
Rothschild e Karl Jordan descobriram e descreveram essa mariposa e deram-lhe o
nome de Xanthopan morgani predicta, que salienta o importante fato de
ter tido sua existência predita pelo famoso naturalista inglês, ao estudar a
orquídea Angraecum sesquipedale. Essa orquídea produz e armazena néctar
no fundo de um longo tubo (rostrellum). Ao tentar coletar esse doce
líquido, a mariposa introduz sua longa espirotromba (probóscides) neste tubo e,
ao fazê-lo, coleta as políneas que estão estrategicamente dispostas, e que serão
levadas e depositadas em outra orquídea, polinizando-a. Assim, para que essa
orquídea com um tubo (rostrellum) de mais de 30 cm possa existir é necessário
que um polinizador equipado com uma tromba de igual dimensão também exista. Foi
exatamente isso que a Xanthopan morgani predicta veio comprovar!

Angraecum eburneum
Em 1991, Gene Kritsky, o famoso
entomologista americano, fez outra previsão com referência a uma outra orquídea
do mesmo gênero, a Angraecum
eburneum variedade
longicalcar, que tem um tubo ainda maior que a
Angraecum sesquipedale. Desde então, Kritsky e outros cientistas
dedicam-se a encontrar essa mariposa, ainda desconhecida, equipada com uma
tromba medindo aproximadamente 40 cm e responsável pela polinização dessa
orquídea.
O
Brasil, por sua dimensão e pelo clima tropical, tem uma quantidade e variedade
de grandes e belas espécies. Entre as famílias de borboletas de maior
importância, contamos com os Ninfalídeos, Papilionídeos, Pierídeos, Licenídeos,
e Hesperiídeos, dentre outros. Abaixo temos representantes dessas famílias.
Clique nas
figuras abaixo para visualização

Nimphalídeos
Papillionídeos
Pierídeos
Licenídeos
Hesperiídeos
A
agricultura intensiva, o uso de fertilizantes, pesticidas e inseticidas em
geral, está contribuindo para o desaparecimento de muitas espécies de
borboletas. Pior que tudo, é a degradação do meio ambiente e o desmatamento
indiscriminado, o avanço de urbanização de áreas onde antes havia parques e
vegetação apropriada, com plantas integrantes da dieta das borboletas nas
diferentes fases do seu ciclo de vida. A substituição, nos jardins das
residências e parques públicos, de plantas nativas, por espécies estranhas à
flora local também contribui para o problema.
Existem muitas espécies ainda a serem descobertas. Com as alterações do
meio-ambiente ou mesmo a destruição total de seus habitats, certamente
jamais serão conhecidas. Muitas espécies são caçadas à exaustão, devido a sua
beleza, para comporem peças artesanais de, no mais das vezes, gosto duvidoso,
ou, ainda, para integrarem coleções particulares desprovidas de qualquer
interesse ou conteúdo científico.
Muitas espécies nativas de borboletas estão em risco de extinção (em muitos
países, elas são protegidas por lei). Ao final deste artigo, divulgamos o
site oficial do Ministério do Meio-ambiente, onde estão listadas as
espécies que correm risco de extinção.

NUNCA tente pegar uma
borboleta com as mãos, pois suas asas por demais delicadas perdem as escamas que
saem como se fossem um finíssimo pó ou podem se romper facilmente condenando-a a
não mais voar. Não tocá-las, reflete mais um gesto pessoal de gentileza que de
consciência ecológica. As borboletas dependem do vôo para concluir seu ciclo
vital.
Assim como imaginam
os poetas, as borboletas são muito delicadas. Delicadas, encantadoras e
coloridas. Quando em vôo errante, parecem brincar entre as flores dos jardins
como poetizou Vinícius de Moraes em seu poema As Borboletas - "brincam
na luz as belas borboletas". Ao brincarem na luz, parecem cores esvoaçantes,
flores que voam ou luzes aladas . . . são por demais delicadas, gentis e sua
metamorfose é um inefável mistério. Ninguém consegue ficar indiferente, ao
deparar-se, em um jardim, com essa maravilhosa combinação - flores e borboletas!
Uma associação perfeita . . . maravilhosa!
Há algo de
verdadeiramente mágico, na transformação de uma lagarta em uma bela borboleta.
Mais que uma mudança, sugere mesmo uma transmutação. Algo bem profundo. Ao se
fecharem em si, como crisálida, fecham-se para o mundo e isso permite toda
essa transformação, que vem de dentro para a superfície. Elas bem guardam isso,
como íntimo segredo. Dentro do casulo, acontece esse momento mágico, sutil
que explode em rara beleza,´pois, entre as belezas e mistérios dos jardins, quem quer que tenha
imaginado as fadas certamente se inspirou nas delicadas e graciosas borboletas.
Recife,
05/02/2006
J.R. Araújo
e-mail - zecaro108@yahoo.com.br
Bibliografia e sites pesquisados
Borboletas - Livro do
Naturalista - Luíz Soledade Otero - FAE, Fundação de Assistência ao Estudante
Ministério da Educação, Rio de
Janeiro, 1986
http://www.tagis.net
- Tagis - Centro de Conservação das Borboletas de
Portugal
Boletim
Tagis tagis
-
Nº 0 , Março de 2004
ª importância das borboletas como
bioindicadores"
http://www.abrasp.org.br
- Artigo sobre o padrão de vôo das borboletas
http://www.educacaopublica.rj.gov.br
- Contém o artigo "Folívoros
exemplares: larvas de borboletas"
do biólogo Felipe
A. P. L. Costa
http://animalplanetbrasil.com
Lista de Borboletas nacionais ameaçadas de
extinção no site
-
http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna/ordem4l.html
Créditos pelas
imagens
http://www.jardin-botanique-lyon.com
- foto do Angraecum erburneo
http://www.larsen-twins.dk
- foto do Angracum sesquipedade
http://www.criptozoologia.org -
foto da Xanthopan morgani predicta com o Angraecum
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