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Chore, ó minha amada Índia

                                                                   François Gautier

 

Eu vivi por 35 anos na Índia. Eu posso dizer sem me vangloriar que sou um  dos poucos jornalistas ocidentais que acreditam na Índia, acreditam na grandeza deste país, acreditam que a Índia está no caminho de transformar-se em uma superpotência, industrial, econômica, social, militar, e, sobretudo espiritual. Durante toda a minha carreira profissional, como jornalista e escritor, eu tentei não me deter muito no aspecto negativo, superficial, anedótico  e  folclórico como a maioria dos meus colegas fazem quando relatam sobre a Índia. Ao contrário, eu tenho empenhado o melhor da minha habilidade para mudar a imagem de pobreza, de corrupção, de intocabilidade, de Cidade da Alegria e de Madre Teresa, que está pendurada no pescoço da Índia desde quando os ingleses, os missionários Cristãos, e, mais tarde, os marxistas moldaram-na. Custou-me caro. Eu tive problemas em todos os jornais onde trabalhei e fui atacado implacavelmente pela maioria dos especialistas franceses da Índia que acham que eu sou um fanático hindu de direita e um anti-Muçulmano, embora a única coisa que eu sempre disse é que a grandeza da Índia se encontra no seu Ethos ou sistema de valores Hindu - a eterna espiritualidade além da religião, que influencia até mesmo minorias indianas - e que há um problema sério com o Islamismo no Sul da Ásia.

Hoje me sinto triste. Banindo um governo que, sejam quais forem suas falhas, tinha devolvido à Índia algum orgulho, alguma estabilidade, algum reconhecimento mundial; eu sinto que os indianos não sabem realmente o que querem. Como sempre, não é sobre o povo, mas o sistema. Há pessoas boas no Congresso, mas um partido que foi fundado por um britânico (A O Hume) para os ingleses que teve toda a sua história uma inclinação pelo sistema ocidental, como simbolizado hoje por esta ânsia irracional de muitos líderes do congresso e pela maioria da intelligentsia indiana por um cristão italiano para governá-los. Sem dúvida, o novo governo tem algumas pessoas muito boas, mas também ostenta muitos membros que têm  somente interesses egoístas em  seus coração e  derrubarão a Índia sem pensar por um segundo no mal que estão fazendo a seu país.

Todos estão delirando por coligações hoje em dia. Mas somente as pessoas que desejam o mal para a Índia podem desejar um governo de coligação. O que acontece em uma coligação tal como a que vemos hoje? Um governo fraco onde todos estão puxando para seu lado, onde não há uma única aspiração unida para o bem do país, nenhum ponto convergente de programas comuns.

O que a Índia necessita agora é de um governo forte, unido, que possa agrupar bastante apoio  popular e votos  no parlamento para iniciar as mudanças que este país necessita urgentemente: um código civil  unificado, um sistema presidencialista, uma reforma da estrutura judicial, um currículo de educação indiana, onde você aprende sobre o passado grandioso da Índia, sobre Ayurveda e Matemática Védica e a ciência de pranayama (respiração) e a história de seus reis orgulhosos e da arte da meditação.  

O governo BJP (Bharatiya Janata Party - Partido do Povo Indiano) caiu. Vocês estão exultantes, ó Cristãos! Vocês parecem ter esquecido o quanto este país lhes deu: a primeira comunidade cristã no mundo, aquela dos Cristãos Sírios, foi estabelecida em Kerala no 1º. Século. Foi bem-vinda pelos Hindus locais e aos Cristãos sempre foi  permitido praticar sua religião em paz, no momento em que outros Cristãos eram perseguidos em todo o mundo. Realmente, foi o português Vasco da Gama e Albuquerque quem proibiu o  Cristianismo sincrético, que a todos incluía e que se desenvolveu em Kerala, rachando desse modo a  Igreja Síria em duas.

O governo BJP caiu. Vocês estão exultantes, ó Muçulmanos! Vocês parecem ter esquecido que os comerciantes árabes vieram para a Índia Hindu  muito tempo antes das primeiras invasões muçulmanas do 7º. Século. Eles  também foram bem-vindos e a eles foi permitido praticar sua religião em paz e comercializar como queriam.  O Islamismo floresceu na Índia de uma maneira que não floresceu em nenhum outro local: Vocês têm um presidente muçulmano agora e os muçulmanos estão livres para praticar e pregar. Os muçulmanos na Índia acham que os Hindus poderiam ter um deles como presidente do Paquistão ou como rei da Arábia Saudita? De maneira nenhuma! Os Hindus nem mesmo podem praticar sua fé abertamente lá! E vocês também estão se esquecendo de que o governo BJP fez  muitos esforços para alcançá-los e provar que eles também os amavam?

O governo BJP caiu. Vocês estão exultantes, ó Marxistas! Mas vocês entendem que o Marxismo está morto em todo o mundo; e que até na China  é  marxismo somente no nome, porque seu governo atualmente implementa  políticas capitalistas? Na Índia vocês são livre para praticar o  Marxismo como sempre quiseram e governaram democraticamente dois estados por  décadas. Ainda mais, Marxismo aqui tem uma característica  bem indiana de marxismo, freqüentemente com uma feição humana, a qual era indisfarçadamente ausente na União  Soviética e na China. Você não tem nenhuma gratidão ao Ethos Hindu por isto? Não são a maioria de seus convertidos, Hindus que praticam o Marxismo com um zelo desconhecido hoje no mundo?

O governo BJP caiu. Vocês estão exultantes, ó membros da  intelligentsia indiana! Vocês pensam que lendo o último "bestseller" do New York Times, falando um inglês polido, e humilhando seus próprios compatriotas, especialmente alguém que tenha uma conexão Hindu, faz de vocês um intelectual. Mas no processo vocês não perderam somente suas raízes, vocês viraram as costas para uma cultura e uma civilização que têm milhares de anos e que deu muito ao mundo. Vocês estão esquecendo o privilégio que é ter nascido na Índia – mais que isso, um Hindu - herdeiros de uma espiritualidade que aceita que Deus Se manifesta sob nomes diferentes, em horas diferentes, quando hoje as duas maiores religiões monoteísticas do mundo ainda pensam que seu Deus é o único verdadeiro e que é seu dever converter todos pelo uso  da  astúcia, da  fraude  ou  pela  força.

Talvez os indianos precisem passar por este processo doloroso, talvez necessitem ser confrontados com um governo que mostre sua cara egoísta e ineficaz abertamente, talvez necessitem experimentar a confusão e a avareza de seus políticos com toda força, antes que entendam que tiveram um bom governo antes desse, um governo que trouxe estabilidade e orgulho  à  Índia, não um que humilhe a Índia apenas para o prazer das minorias,  do Vaticano, e dos poderes ocidentais que não querem  ver  a  Índia emergir como uma nação forte e independente.

Mas no processo, a economia da Índia irá sofrer. Já tem perdido  milhares de crores nas quebras das bolsas de ações. A imagem da Índia irá outra vez cair aos olhos do mundo. Os negócios estrangeiros da Índia serão desordenados, com políticas inúteis como se aproximar da Palestina que está em voga outra vez. E a Índia será um pouco mais dividida na casta, na etnia e na religião, graças àqueles que agora  estão  no  poder  em  Delhi.

Neste momento, há forças trabalhando para destruir a Índia, não pelo  arremesso  de  uma bomba nuclear  sobre  ela, mas simplesmente colocando um contra o outro, pela  cópia cega das novidades, falhas, e excessos do Ocidente, desviando com forças que são inimigas para a Índia, alinhando-se com forças inimigas de sua antiga espiritualidade.

Pois  a  grandeza da Índia é espiritual. O mundo perdeu a verdade. Nós perdemos o Grande Senso, o sentido de nossa evolução, o sentido do porque de tanto sofrimento, porque morrer, porque nascer, porque esta terra, quem  nós somos, o que é a alma, o que é a reencarnação, onde está a verdade final sobre o mundo, o universo... Mas a Índia manteve esta verdade. A Índia preservou isto através de sete milênios de ciladas, genocídios, e erros. E isto era para ser o presente da Índia para este planeta neste século: restaurar para o mundo seu sentido verdadeiro, recarregar a humanidade com o verdadeiro significado e espírito da vida. A Índia  pode tornar-se o líder espiritual do mundo, e somente seu próprio povo permitirá isto.

Hoje eu me sinto triste. Triste pela Índia, triste pelo mundo. A Índia está em perigo mortal, seu eterno sanatana dharma está sob a ameaça de seu próprio povo. E se a Índia morrer espiritualmente, o mundo morrerá também. A Índia é a última chance para o mundo evitar o pralaya, a autodestruição.

Chore, ó  minha  amada  Índia,  veja  o  que  teus  filhos  fizeram  a  ti !


New Delhi/ India
 Junho  de  2004
 
Francois Gautier
é um   famoso  jornalista  e  escritor  francês.
Reside na Índia  e  é colunista  do  Le Figaro,
Journal de Genève e Ouest-France. Em 2003 
fundou a FACT -  uma ONG anti-terrorismo.

e-mail:    fgautier@sify.com
Visite seu website:     http://www.francoisgautier.com

 

Este  artigo  foi  traduzido  e  formatado  por

J. R. Araújo com a permissão escrita do autor.

 

       T O P O

  

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