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Dona
Quiqui:
Carlos Heliy
É muito bom ter mais de sessenta anos, hoje minha maior diversão é andar pela cidade de ônibus, porque graças a minha idade, posso andar sem ter que pagar e o melhor de tudo é que, mesmo com o ônibus lotado, eu só andar sentada. Mas essa façanha não é fácil de se conseguir. Eu já até ensinei para minhas amigas do clube da boa idade. Disse pra elas: quando vocês entrarem no ônibus, façam parecer que vocês estão fazendo um esforço monstruoso só pra entrar no ônibus, vale até demorar um pouquinho para que eles fiquem um pouco aflitos pela demora. Logo-logo alguém lhes estenderá a mão pra servir de apoio e outra pessoa lhes oferecerá um assento. É muito fácil. Mas às vezes acordo com vontade de pagar a passagem e viver um pouco como a população mediana que não tem uma boquinha como a minha. È nessas horas que a gente se dá de cara com cada situação. Outro dia entrei no ônibus paguei e fui sentar lá nos bancos de trás, de repente entra um menino desses marronzinhos, uma cara de passa fome e um semblante de pobre-coitadinho, um pouco forçado, mas intrigante. O garoto usa uma forma de falar ritmada e sem pausa, que chega a parecer um mantra dizendo algo como: ”... não fumo não cheiro cola, tenho trocentos irmãos, meu pai tá doente, minha mãe desempregada, não temos nada pra comer, estou aqui pra pedir uma ajuda, pois é melhor pedir do que roubar, vou aqui cantar esse hino evangélico...” Daí se põe a cantar um desses hinos evangélicos, pra lá de chato, com as ameaças de sempre que são evocadas contra aqueles que não se redimirem de seus pecados, declaração de uma impotência humana satisfeita e a crença no destino já determinado. Durante a canção do hino o jovem permanece com aquela cara de cachorro morto de fome. Alguns passageiros, como eu, fazem de conta que nada está acontecendo e tentam não ouvir aquela chatice de hino. Os evangélicos e os bundas-moles cagões se compadecem da ceninha. Pois é, estes caras, vendo aquela cara sofrida do garoto, dão uns trocados (aposto que neste momento devem se achar as melhores pessoas do mundo). Os outros, como eu, quando chegam a falar com o jovem - pois muitos ficam de cara voltada para fora do ônibus o tempo todo - dizem que não têm, e justificam para si mesmo esse egoísmo com o conhecido ditado comunista que diz “a esmola atrasa a revolução”. Mas o melhor de tudo fica pro final quando o jovem termina sua coleta, mesmo não juntando um real, ele agradece, senta por ali e pede parada (Ora! Agradecer o que?!). Tô pensando em me juntar com umas amigas pretinhas lá do clube da boa idade, a gente se fantasiaria de “xangozeiras”, iria pros ônibus cantar umas toadas de terreiro e se divertiria vendo a cara dos evangélicos.
Carlos Heliy é formado em Sociologia e-mail - heliy@uol.com.br
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