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Kaibab: uma lição jamais esquecida
J.R.Araújo
Embora o termo Ecologia tenha sido utilizado pela primeira vez pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, a Ciência do meio-ambiente permaneceu, durante muitos anos, como um ramo da Biologia e seus fundamentos foram sendo desvendados gradativamente, na maioria dos casos pela observação direta das alterações e dos estragos causados no meio-ambiente pela ação de catástrofes naturais ou pela ação irrefletida do homem na busca do desenvolvimento. O meio-ambiente pode ser alterado por forças dentro da comunidade de seres vivos (biótica), bem como pela interação dos organismos com o ambiente físico. A Capacidade de Sustentação de um eco-sistema é definida como o número máximo de organismos que uma área pode sustentar em bases normais que permita uma vida adequada às necessidades das diferentes espécies. Uma alta densidade populacional pode produzir mudanças profundas no ambiente de tal modo que este se torne inadequado para a sobrevivência de determinada espécie. O super pastoreio da grama em um campo, por exemplo, pode fazer com que o pasto se deteriore de tal forma que seja impossível a manutenção dessa área como fornecedor de pasto à uma determinada espécie. Hoje temos esse entendimento, mas nem sempre foi assim. Vejamos um acontecimento histórico que foi de suprema relevância para o entendimento das relações sutis entre as espécies e seus habitats e dos seres vivos entre si.
Em 1905, a população de alces no Planalto Kaibab, no estado americano do Arizona, foi estimada em cerca de 4.000 indivíduos distribuídos em 300.000 hectares. A capacidade de sustentação média foi estimada em 30.000 por hectare. A população, portanto. tinha decrescido a um número perigoso de indivíduos. Qualquer mudança mais drástica nas condições climáticas ou uma epidemia de alguma doença fatal poderia levar a espécie à extinção. Toda a área de Kaibab tinha sido invadida por fazendeiros e todo o pasto natural de capins perenes havia sido destruído pelos rebanhos de ovelhas, gado e cavalos. As fazendas avançavam cada vez mais na floresta. A população de alces era empurrada para locais impróprios a seu normal desenvolvimento, sofrendo com a competição desigual pelos pastos, além de sofrer a perseguição de seus predadores naturais e a caça incessante e desenfreada dos caçadores ávidos pela carne e pele desses animais. Assim, em 28 de Novembro de 1906, o então Presidente Theodore Roosevelt determinou que a área fosse transformada em um parque de preservação nacional, com o propósito de proteger o rebanho de alces selvagens. Como medida inicial foi decretada a proibição total da caça aos alces. Em 1907, o serviço florestal iniciou o extermínio dos predadores naturais do alce. Entre 1907 e 1939 foram exterminados 816 leões da montanha, 20 lobos, 7.400 coiotes e mais de 500 bobcats. Devido ao estabelecimento de uma área de proteção à espécie, agora havia grandes áreas destinadas ao pasto com abundância de capins e água, sem a competição dos fazendeiros e seus rebanhos. Com a proibição da caça e diminuição de predadores, o rebanho de alces de Kaibab tinha tudo ao seu favor para bem viver e reproduzir.
A partir de 1907 a população de alces começou a se recuperar e os responsáveis pelo projeto comemoravam o sucesso. Em 1925 as coisas começaram a mudar e o que a princípio era motivo de júbilo, agora transformara-se em franca preocupação. Algo não previsto e jamais imaginado estava acontecendo. A população de alces aumentava de tal modo que as áreas destinadas ao pasto eram insuficientes. Foram expedidos decretos expropriando áreas dos fazendeiros como medidas para incrementar a disponibilidade de áreas pastáveis destinadas ao rebanho de alces. Por volta de 1924 a situação era caótica na Floresta Kaibab. Não havia pastos suficientes para a numerosa população de alces
Toda a vegetação própria ao consumo dos alces havia desaparecido, as árvores e arvoredos não apresentavam qualquer vestígios de folha à altura em que um alce pudesse alcançar. Muitos animais famintos enfraquecidos pela falta de alimento, adoeciam e morriam. Em dois anos 60% do rebanho havia morrido. Foi formado um comitê para estudar e formular soluções de emergência ao que acontecia em Kaibab. Desses estudos, emergiu o conceito de cadeia alimentar e sua importância na manutenção do equilíbrio entre as diferentes espécies (não apenas de uma única espécie) e a capacidade de um eco-sistema para sustentá-las. Os alces, os vegetais que os alimentavam, os predadores, todos subsistiam em uma interdependência que impunha uma ordem natural em suas populações, mantendo-as em equilíbrio, sem quaisquer privilégio de uma em relação às demais. Todas as populações de diferentes espécies se auto-regulavam, em face da população de outras espécies das quais dependiam. Assim conceitos como teia alimentar (que envolve poucas espécies), cadeia alimentar ( que envolve um sem-número de espécies), Capacidade de Sustentação de um eco-sistema, Equilíbrio Ecológico etc., foram conceitos que começaram a emergir do que inicialmente se configurou com uma catástrofe, mas que nos ajudou em muito a entender a natureza, e nossa própria relação como seres participantes da comunidade biótica em que estamos inseridos.
Recife, Fevereiro 2005
J.R. Araújo e-mail - zecaro108@yahoo.com.br
Referências: Lawrence W. McCombs/ Nicholas Rosa - What's Ecology ? - Addison-Wesley Publishing Company, Inc. 1986 California, London, Sidney
Mohan
Wali -
Ecology as Science -
Published in TEG news issue 27, Spring 2001, by the British Ecological
Society.Category: Philosophy of ecology and ecological education www.ekcsk12.org/science/ lelab/kaibablesson.htm - pela foto dos alces, acima www.biologycorner.com/worksheets/kaibab.html - pelos valores da tabela Tabela e gráfico - J.R.Araújo
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