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                                           As cores do protesto 

                                                                                                                                                 J. R. Araújo

 

Nas décadas  de  vinte e trinta,  o  trabalho  dos  muralistas  mexicanos,  liderados  por José Orozco, Diego Rivera  e  David Alfaro Siqueiros,  que  emprestavam  seus  talentos  em  prol  da Revolução, teve  grande  repercussão, como  arte  e  formação de opinião, com  uma  abordagem marxista  de  seus  murais,  denunciando  todas  as  mazelas  de  uma  sociedade  desigual.  

 

Na  década  de  60, vários  tipos de  manifestações  de  protesto,  contra  a Guerra  no Vietnam; usavam como  veículo a música, a  pintura, escultura, o teatro e o cinema.  Nesse  contexto, surgiram  as  primeiras  inscrições  nos muros com slogans  e críticas. Especialmente famosos  ficaram o símbolo de “paz e amor” e  a frase “Make Love,  Not War” ( Faça Amor, não Guerra) slogan maior do  movimento hippie  e de  toda  a  contra-cultura  americana. 

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O “Psicodelismo” surgiu como expressão do movimento hippie e viria a influenciar a pintura, as artes gráficas e toda forma de expressão de então. De início as fachadas de  pequenas lojas, as famosas boutiques hippies, foram decoradas com as cores da psique, ou psicodélicas e logo os muros, os carros, camisetas, caminhões, ônibus e outros substratos que, de alguma forma, pudessem levar a mensagem de rebeldia e da  nova  ordem, como  preconizados  pela  contra-cultura,  também  chamada  de  movimento hippie.  

 

A contra-cultura, surgiu no Lower East Side, em Nova York, como um movimento que se insurgia contra o sistema vigente. Abominava as guerras, as convenções de uma sociedade de consumo, o modelo de exclusão vigente e adotava uma filosofia de vida simples, frugal, voltada para a valorização individual contra a cultura de massas. Promovia a vida espiritual, a dieta vegetariana e macrobiótica, a preservação da  natureza, o  amor  livre  e (infelizmente) drogas, muitas  drogas.      ( Clique para aumentar imagem )

 

Ainda nos anos 60, surgiria o movimento de arte underground, conhecido como graffiti, primeiramente na Philadelphia, Pennsylvania, quando pichações de dois nomes, Cornbread e Cool Earl  (pseudônimos usados por dois rapazes) apareceram em toda parte da cidade, chamando atenção de todos, inclusive da mídia.  Em Nova York, a  partir de 1971,  começava  a  aparecer  inscrições por  toda  área  do  metrô: nos vagões, nas estações, corredores, paredes de escadas,etc. O “The New York Times fez a primeira reportagem com um garoto que  assinava Taki 183  e  que virou uma celebridade  no  meio underground novaiorquino.

 

      Tag

De  imediato,  muitos  aderiram  às pichações que consistiam na inscrição de pseudônimos (tags) e que logo geraria uma tremenda competição. Entre os pioneiros e famosos podemos citar Julio 204, Frank 207, Joe 136, Friendly Freddie, Stay High 149, Super Kool 223 (o número indica a rua onde moravam) e muitos outros. Estilo ainda não era importante, mas sim a quantidade de pichações e a dificuldade de acesso aos locais onde estas apareciam.  Em pouco tempo, havia muita gente pichando.              

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      Exemplo de uma TAG mais  elaborada

Foi quando surgiu a necessidade de se escolher estilos próprios, como diferencial no mar de pichações em que estava o cenário. Caligrafia, cores e elementos diversos viriam a enriquecer as inscrições, personalizando as tags, ora com apelo simplesmente visual, ora com alguma mensagem. Um aspecto positivo foi o movimento de  rua denominado Hip Hop que se espalhou pelo mundo como cultura urbana, de rua e tem como elementos o rap (música e poesia), o graffiti  (como artes plásticas) e o break como dança. A partir de então, os estilos evoluíram com a crescente criatividade de tantos pichadores, elevando o padrão das inscrições a níveis realmente notáveis. Apesar da individualidade marcante, os graffitis sempre foram obra sem dono: observe a evolução do mural abaixo, com  seguidas  re-interpretações de diferentes grafiteiros. 

 

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           Outubro 1996                                Abril de 1997                                Julho de 1997

 

                                                      

                      Novembro de 1997                                                   Dezembro de 1997

 

 

Não demorou muito, o talento e potencial artístico da moçada e inesperada cobertura da imprensa atrairia a atenção das pessoas ligadas às artes, no meio acadêmico, bem como das galerias. Nos anos 80, gravuras, cenários e outros elementos foram incorporados aos graffitis  distanciando-os de sua origem, as pichações, em parte devido ao intercâmbio dos muralistas americanos com os europeus e de todos eles com o ambiente acadêmico e das galerias  de  arte.  Em  Dusseldorf, Munique, Copenhagen, Londres, Paris e Sydney teve início o uso da  pintura  de  trens  e  dos caminhões. .  ( clique para aumentar imagem )

Certamente  que  houve uma evolução no graffiti, mas ainda persiste a influência das pichações ( tags ).    Embora   conservando  as  características  de  rebeldia  que  motivaram  os  dois movimentos, a  Art-graffiti  mantém  técnica  e  conteúdo próprios.  O ponto de convergência, entre Graffiti e pichação, é o  uso  da  escrita  de  forma  estilizada  e  caligráfica, com  frases  críticas ao sistema.  Na pichação, a  escrita  pode  ser  monocromática  ou  pode  se  utilizar  de  várias  cores,  num  efeito  da escrita / visual  provocativos  ou   meramente  como  a  “marca  registrada” ou  “assinatura” do autor. No graffiti, a escrita  aparece  como  um  reforço à  mensagem  visual,  mas  quase  sempre  como  um protesto.  A assinatura ou marca do autor, como nas artes plásticas, aparece  de  forma  discreta.   

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Quer  a  pintura  seja   figurativa  ou  abstrata,  o  objetivo  é  chocar  ou  chamar  atenção  sobre determinado  tema  social. Nota-se  uma  diferença significativa  entre  os  artistas  graffitis europeus e americanos.  Nestes, o protesto é contra o sistema, contra as desigualdades sociais, enquanto naqueles é mais contra os costumes e maneira de pensar. O graffiti americano choca pela agressividade, enquanto o europeu pela ironia. Em todo caso, refletem o incômodo causado pelas desvantagens sociais.  Com o tempo, dois  grupos  se  formaram  no  universo  do  graffiti, um manteve-se  fiel  à  pintura  de muros; o outro  adotou  as  telas,  galerias  e  museus.   

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        graffiti americano                             europeu                                        americano

 

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) começou com graffiti e tornou-se uma celebridade no mundo das artes. Embora se considerasse um pintor das belas-artes, nunca viria a abandonar seu estilo crítico, impregnado  de  elementos  da  art-graffiti.           ( clique para aumentar imagem )

              

            Arroz con pollo - Basquiat

É digno de nota que em todo mundo o termo graffiti se aplica à pintura mais elaborada, com elementos figurativos ou abstratos, bem como às inscrições. O Brasil é único lugar que realmente existem os termos Graffiti  e “pichação”, que  se  refere  às inscrições geralmente associadas à vandalismo. Seja como for, a arte de rua surgiu com a força e talento de pessoas que saíam do anonimato e se mostravam nos muros das grandes cidades. Mesmo que alguns tenham evoluído em direção a uma expressão mais elaborada, todos, não obstante essas diferenças, pode-se dizer, são “Artistas do Spray”, alguns com um traço rústico, outros mais sofisticados, tendo em comum a arte como o “vômito” do que não puderam digerir nas proporções desiguais de uma sociedade desigual. Felizmente, arte  é isso; Arte ! Feita de inspiração, beleza, denúncias (como Guernica de Picasso), emoções, compromisso, não-compromissos, simetrias, assimetrias, feiúras; enfim, a arte, mais que qualquer outra atividade do gênero humano, pressupõe  uma  dose  de  cumplicidade  entre  aqueles  que  a  fazem  e  aqueles  que  a apreciam ( mesmo que nunca se tenham visto ) e  é  exatamente  nisso  que  está  toda  a  graça  da coisa.

 

Recife,

Setembro 2005

 

J.R. Araújo

e-mail - zecaro108@yahoo.com.br

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Sites  para  leitura  adicional

http://www.at149st.com

http://www.graffiti.org

                               

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