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Mistério  dos  Jardins  Zen

 

                                                                                J. R. Araújo

 

Os  mais  antigos jardins japoneses conhecidos remontam aos Períodos Asuka  (593-710)  e  Nara  (710-794). Na  área  que  compreendia Yamamoto (agora no distrito de Nara)  os  jardineiros da Família Imperial  e  dos  poderosos  clãs  feudais  concebiam  projetos  paisagísticos  imitando  a  natureza,  com  pequenas  montanhas,  lagos,  fontes,  rios,  ilhas etc. O planejamento e execução de  jardins  assumiram  aspectos sofisticados  de  verdadeira  arte,  que  não  se  preocupava  com  a  simetria,  como  nos  jardins  ocidentais,  mas  pretendia  capturar  a  natureza  em  suas  formas  mais  essenciais,  de  modo  a  ser  um  local  agradável  que  visava,  primariamente,  evocar  o  bem-estar  e  a  tranqüilidade  que    a  Natureza  em  sua  condição  intocada  poderia  oferecer.

Os jardins japoneses podem ser geralmente classificados em dois tipos: 

1        tisukyama de topografia montanhosa que incorpora desníveis variados, fontes, lagos, riachos e cascatas;

2        hiranywa, caracterizados por uma área plana e sem elevações ou riachos que percorrem  desníveis.

Podem, ainda,  ter elementos vivos como árvores e  plantas, amatsu iwakura (assento celestial),  apenas pedras e rochas, himorogi (cerca divina) ou ainda lagos e riachos, mizugaki (cerca de águas).  

O Budhismo  foi  introduzido  no  Japão  a  partir  do  ano  538, através  da  China  e  da  Coréia,  sendo  de  imediato absorvido  pela  elite  japonesa,  contribuindo  não  apenas  na  área  religiosa  e  espiritual,  mas  nas  artes  e  na própria  maneira  de  pensar.  O  povo,  entretanto,  não  aceitou  a  nova  doutrina,  mantendo-se  fiel  aos  princípios da  religião  original  do  país,  o  Shintoísmo.  Mais tarde, porém, ambas  as  doutrinas  viriam  a  se  mesclar,  num sincretismo  que  deu  origem  à  peculiar  maneira  budista  Zen. As artes religiosas Zen, emprestaram  muitos  de  seus conceitos  próprios  à  cultura  japonesa,  inclusive  na  arte  da  jardinagem.   

 

Dentre inúmeros jardins típicos japoneses, destaca-se o jardim do Templo Ryoanji (Templo do Dragão Pacífico)  em Kyoto,  Japão, que  é  um  local  Zen  destinado a adoração e meditação, inicialmente construído por volta do ano de 1450. O  Templo  foi  destruído  por  um  incêndio  durante a  Guerra  de  Onin,  quando  quase  toda  Kyoto  foi destruída,  e  reconstruído  em  1486.  O  jardim  de  pedras foi construído  por essa  época  como um  local  para  os monges  meditarem. 

O  jardim  do  Mosteiro Ryoanji  não  contém  árvores, plantas, flores,  grama, nem  mesmo  ervas daninhas. Consiste num retângulo  de  30 x 10  metros  circundado  por  um muro  baixo  em  três  de  seus  lados,  tendo  o  quarto  lado margeado  por  uma  varanda  que  serve  como  ponto  de observação  privilegiado. Dentro  do  retângulo  preenchido com  cascalhos  brancos, existem cinco aglomerados de rochas grandes, perfazendo  um  total  de  quinze  dessas rochas  de  tamanhos  variados. Os  cascalhos, pequenos seixos brancos,  são  ciscados  todos  os  dias,  formando perfeitos  círculos  em  torno  das  rochas,  perfeitas  linhas retas  no  vazio  entre  elas  são  desenhados. As  rochas são  arranjadas  de  tal  maneira  que  de  qualquer  ponto  em que  um  observador  esteja,  por  toda  a  volta  do jardim,  poderá  ver  quatorze  pedras,  estando  a  décima quinta sempre escondida. È dito que  apenas  quando  uma pessoa  alcançar  a  iluminação,  poderá, então, visualizar  as quinze  pedras  ao  mesmo  tempo.  Durante anos, os visitantes do Templo, sentem uma inconfundível sensação de paz ao se depararem com o jardim de Ryoanji. Algo que se pode experimentar por si, independente de sugestões ou conceitos pré-concebidos e que faz desse  jardim  famoso  em todo  mundo  pela  paz  e  serenidade  sentida  por  todos que  o  visitam. Muitas  explicações  sobre o  formato  do jardim  tentaram decifrar seu segredo; desde a representação de que os pequenos seixos brancos seriam o mar  e as rochas as ilhas do Japão,  até a interpretação de que as rochas simbolizavam uma mãe tigre cruzando um rio com seus filhotes, nadando em direção a um temeroso dragão. Todavia, está no espaço vazio criado pela disposição  das rochas e no vácuo  sugerido  pelo  cascalho  branco que  parece  ter intrigado  visitantes  desde  muito  tempo. 

 

 

 

 

         

        

 

 

 

                     

         TEM  do  jardim  do  Templo

Agora, parece que o mistério foi finalmente decifrado. O professor Gert van Tonder da Universidade de Kyoto  e  Michael J. Lyon,  um  cientista sênior  da  ATR- Media Information Laboratories de Kyoto aplicando uma técnica de análise gráfica conhecida  como Transformação do Eixo Médio  conseguiram  revelar características estruturais  ocultas  no  espaço  entre  as  rochas.  O  segredo: o  jardim  de  mais  de 500  anos  esconde  uma  mensagem  subliminar  no  formato  de  uma  árvore !

Em  primeiro lugar  vamos  entender  um  pouco  da  Transformação  do  Eixo  Médio (TEM). Todas  formas geométricas  que  nos  fornecem  informações  sobre  uma estrutura  animada  ou  inanimada  podem  ser  “enxugadas”  em  umas  poucas  linhas essenciais.  Essas  linhas são  fornecidas  pelo  eixo  médio  da  figura  ou  eixo  centralizado que  nos  fornece  a  visão  mais mínima  possível  que  se  pode  representar  a  figura  ou  estrutura  

 

 

Tome  por  exemplo  as  letras  A  e  B  acima,  na  forma  “cheia”  e  na  redução  ao  seu  eixo médio (TEM). Observamos que a TEM das letras é uma  representação mínima das mesmas. A TEM  pode, conceitualmente,  ser  entendida  nas palavras  do  seu  inventor, Harry Blum:  “imagine  que  nos  lados  opostos  de  um  campo de  grama  seca (figura  abaixo),  seja  ateado  fogo;  despreze  a  ação  do  vento  ou  outros  fatores.  Onde  o  fogo  de  um  lado  encontra  o  proveniente  do  outro  (figura B abaixo) é  o  eixo  médio”.  Ainda  na  figura  abaixo, a  TEM  da  figura  é  um  Y  invertido.  Note  a  TEM  da  figura  que  passa  nos  centros  dos  três círculos  que  a  compõemEstudos  anteriores  de  como  os  humanos  e  os  primatas  processam  imagens  visuais  sugerem  que  temos  uma  sensitividade  inconsciente  ao  eixo  médio  das  formas,  como  assegura  o  professor  van  Tonder.  

 

 

O  segredo  parece  ser  este  mesmo.  Visto  da  varanda  do  Templo,  o  jardim  de  pedras  parece  sensibilizar  nossa capacidade  inconsciente  de  perceber  imagens  processadas  e  entendidas  pela  mente,  embora  invisíveis aos nossos  olhos.  Ao  tentar  mudar  a  disposição  de  rochas  em  arranjos  diferentes  dos  do  Mosteiro  Ryoanji, o efeito  não  foi  o  mesmo,  e  nenhum  padrão  de  árvore  foi  definido  pela  técnica  da  TEM.  Assim,  concluíram que o  padrão  evocado  pela  TEM  da  disposição  das  pedras  no  jardim  do  Mosteiro Ryoanji  é  responsável pelo efeito  calmante  do  ambiente.  Estudos  anteriores  feitos  por Ilona Kovács, uma cientista visual da Universidade de Rutgers,  em  New Jersey, Estados Unidos,  demonstrou  que  o  cérebro  humano  usa  linhas  simétricas  semelhantes àquelas  dos  desenhos  feitos  pelas  crianças,  como  uma  maneira  de  entender  e  dar  sentido  às  formas. 

O  que  os  cientistas,  agora,  parecem  reconhecer,  foi,  não  obstante,  entendido  pelos  mestres  Zen    muitos anos.  Quem  desenhou  o  jardim  minimalista  do  Mosteiro Ryoanji  sabia  exatamente  o  que  estava  fazendo,  pois sua  inspiração  não  foi  obra  do  intelecto,  da  lógica  nem  de  qualquer  método  indutivo-dedutivo. Foi, parece ter sido, conseqüência  de  um  processo  de  auto-iluminação,  proveniente  do  além-da-mente,  que  é  o  objetivo  Zen, onde  existe  a  essência  do  que  somos,  além  da  lógica,  além  do  corpo,  além  do  intelecto.  Para  os  não iluminados,  o  jardim  do  Templo  Zen  Ryoanji  evoca  tranqüilidade  e  paz,  porém  para  um  monge  em  meditação profunda,  que  tenha  alcançado  esse  longínquo  território  além  da  mente,  não  se  trata  de  um  jardim  de  pedras, nem  de  árvores,  mas  da  essência  de  ambos,  onde  tudo  coexiste  como  energia  única,  imutável,  UNA  e  ao mesmo  tempo  VARIADA.  Como  semente  da  existência . . . Como  a  própria  busca  e  objetivo  do  Zen. 

 

 

 

Recife,

22/ 06/ 2005   

 

J.R. Araújo

e-mail - zecaro108@yahoo.com.br

 

Referências:

1.      Van Tonder, G., Lyons, M.J. & Ejima, Y. Visual structure of a Japanese Zen garden. Nature, 419, 359, (2002).

2.      Kovács, I. & Julesz, B. Perceptual sensitivity maps within globally defined visual shapes. Nature, 370, 644 - 646 (1994).

Sites de  interesse

www.lichtensteiger.de/ryoanji03.html

 

www.ngnews.com/news/2002/09/0925_020925_zengarden.html

 

www.ngnews.com/news/2002/09/0925_020925_zengarden

 

www.duke.edu/APSI/documents/ChrisChin.doc

 

 

      T O P O

 

      

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