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Lembranças na estação 

                                                                                                                                  J.R. Araújo

 

Era um dia especial. Na verdade, era o melhor dos dias. Sentia-se infinitamente feliz. Quase não tinha dormido ultimamente, devido à excitação causada pelo telegrama recebido e  hoje  era  o  dia  marcado. Todas  as  suas  amigas  também  estavam  felizes,  ansiosas  pela  chegada  do  trem. Algumas  tinham  vindo  com  ela  até  a  estação,  outras  tinham  ficado  em  sua  casa,  ultimando  os  preparativos  para  a  grande  chegada.  Balões  coloridos  enfeitavam  a  entrada  de  sua  casa,  mesa  farta  com  bolos,  pastéis  e  quitutes  diversos,  sucos  de  várias  frutas,  refrigerantes,  tudo  para  agradar  aos  convidados  e  ao  ilustre  viajante,  seu  único  e  querido  filho.  Estaria  ele  mais  magro ?  Talvez  não,   ele  sempre  soubera  se  cuidar.  Estaria  ele  bem ?  Certamente  que  sim !  Pois  sempre  foi  um  garoto  esforçado,  estudioso,  inteligente,  saíra  ao  pai !  Era  seu  orgulho,  era   sua  missão  na  vida. Tinha  tanto  a  lhe  contar,  embora  poucas  coisas  tivessem  mudado,  em  casa  ou  na  pequena  cidade,  nesses  quase  doze  anos.  Levava  consigo  uma  cesta  de  vime,  com  alças e  coberta  com  um  pano branco  de  linho  que  protegia duas  dúzias de  pão-de-mel, o  preferido  de  seu  filho. Completando  a  outra  metade  da  cesta,  havia  flores  de  várias  espécies,  cores  e  perfumes,  coletadas  próximo  à  sua  casa  e  que  eram  facilmente  encontradas  nos  campos,  nos  arredores  da  cidade.  Tudo  estava  perfeito,  o  dia  estava  maravilhoso.  Mas  “como  o  trem  demorava !” Seu  Olavo,  o  chefe  da  estação  e  o  melhor  amigo  de  seu  saudoso  marido,  se  aproximou  para  certificá-la  de  que  o  trem  estava  no  horário,  quase  chegando.  Seu  Francisco,  o  telegrafista,  também  veio  confirmar.  Chegara  à  estação  às  três  e  meia  daquela  tarde  de  sexta-feira,  uma  hora  antes  da  chegada  do  trem.  Parecia  uma  eternidade !  Finalmente  o  trem  apontou  ao  longe, na  curva,  como  que  surgindo  do  bambuzal.  A  locomotiva  azul,  puxando  vagões  vermelhos  surgiu  imponente,  soltando  fumaça,  soando  o  apito.  Diminuindo  a  velocidade,  quase  parando.  Um  burburinho  na  plataforma  da  estação.  Muitas  pessoas  a  espera  de  entes  queridos.  Sua  comitiva,  com  quase  dez  pessoas,  as  amigas  e  alguns  amigos  de  seu  filho,  avançaram,  ansiosos,  felizes.  O  trem  parou,  passageiros  cansados  mas  alegres,  emergiram  dos  vagões,  pessoas  se  abraçando.  Ela  agora  impaciente,  na  ponta  dos  pés,  tentando  achar  seu  tesouro. . . “Puxa !  Mas  onde  está  esse  menino !”  pensou,  sorrindo  nervosa.  Os  segundos  passavam,  nada . . . Os  amigos  correram  ao  longo  da  plataforma,  olhando  pelas  janelas  dos  vagões . . . Seu  Olavo  notou  sua  inquietação. Ela  olhou  para  o  amigo,  olhos  suplicantes,  talvez  ele  estivesse  no  trem,  pensou  num  fio  de  esperança.  Este, entendendo,  subiu  até  o  trem  antes  de  autorizar  a  partida,  e  deu  uma  olhada  rápida  em  todos  os  vagões,  na  esperança  de  encontrá-lo,  talvez  dormindo,  cansado  pela  extenuante  viagem. Nada . . . Retornou  meio  sem  jeito,  em ter  que  dar  a  desalentadora  resposta.  Finalmente  o  trem  seguiu  seu  destino.  Mas  o  que  estava  acontecendo ?  Ela  se  perguntava,  todos  se  perguntavam. Algo  estava  errado.  O  telegrama  foi  tão  claro,  indicando  dia  e  hora  da  chegada.

O  caminho de  volta  para  casa  foi  doloroso.  As  amigas  se  acercaram.  Os  rapazes  adiantaram  o  passo  e  chegaram  antes  para  avisarem  aos  outros. Em  casa,  ela  disfarçou  a  tristeza  com  um  pálido  e  resignado  sorriso.  Agradeceu  a  presença  e  ajuda  de  todos. Os  rapazes  beberam  algum  suco  ou  refrigerante;  as  senhoras,  com  muita  insistência  da  anfitriã,  levaram  alguma  coisa  para  suas  casas,  mas  via  de  regra,  ninguém  parecia  muito  interessado  nas  guloseimas,  o  momento  não  era  oportuno. Apenas  as  crianças  menores  participaram  do  banquete,  com  entusiasmo  e  folia,  próprios  da  inocência  e  disposição  infantis.  Aos  poucos  todos  se  despediram,  disseram  algumas  palavras  de  consolo.  Talvez  ele  se  referira  à  próxima  sexta-feira,  estimulou  um.  Em  breve  ele  daria  notícias,  aduziu  outro.  Os  dias  passaram.  Na  semana  seguinte,  grande  alegria !  Seu  Francisco  pessoalmente  veio  entregar  o  telegrama.  Agora  mais  longo, carinhoso,  com  um  pedido  de  desculpa.  Estivera  muito  atarefado,  mas  que  estava  certamente  chegando  nessa  sexta  próxima. Ah !  Agora  sim !

Armou-se  de  alegrias,  arrumou  a  casa,  umas  poucas  amigas,  dentre  as  mais  fiéis,  vieram  e  ajudaram,  embora  dessa  vez  a  mesa  estivessem  menos  farta  e  os  preparativos  menos  pomposos,  devido  aos  parcos  recursos  que  sobraram,  não  utilizados  na  recepção  da  semana  anterior.  Chegou  à  estação,  esperou  ansiosa,  o  trem  chegou . . . a  mesma  decepção . . . dessa  vez  ao  se  ver  sozinha,  em  casa,    não  foi  tão  forte  como  antes,  chorou  a  noite  inteira  ou  até  onde  pôde  permanecer  acordada.  Lia  e  relia  os  telegramas  e  cada  vez  menos  entendia. Alguns  dias  depois  teve  um  sonho:  nele  seu  filho  chegava,  como  prometido  em  uma  sexta-feira,  a  última  do  mês.  Tomou  isto  como  um  aviso,  uma  premonição.  Resolveu  que  todas  as  últimas  sextas-feiras  de  cada  mês  iria  esperá-lo  na  estação.  A  princípio  as  amigas  tentaram  dissuadi-la.  Seu  Olavo  tentou  conversar.  Nada.  Amor  de  mãe  tinha  muita  força,  o  que  finalmente  traria  seu  querido  filho  de  volta,  pensava  ela  Os  meses  passaram.  Os  anos  passaram.  Algumas  amigas    não  estavam  presentes.  Seu  Olavo  também.  Seu  Francisco  se  aposentou  e  foi  morar  em  outra  cidade.  Ao  longo  dos  anos,  ainda  recebeu  duas  cartas  do  filho.  Respondeu  a  ambas,  nada  além  disso.  Os  trens    não  passavam  todos  os  dias,  apenas  nas  sextas-feiras.  Não  havia  mais  flores  no  cesto. Os  campos  floridos  desapareceram  ou  ficaram  distantes  de  sua  casa,  talvez  pela  expansão  da  cidade,  talvez  pelo  peso  da  idade  ficara  difícil  coletá-las,  não  sabia  precisar.  No  cesto  apenas  os  pães-de-mel,  cada  vez  em  menor  quantidade, dentro  de  um  saquinho  plástico  para  facilitar  a  dispensa,  no  banco  da  estação.  Eram  avidamente  esperados  por  algumas  crianças  pobres,  que  não  a  conheciam,  nem  sabiam  direito  o  que  ela  fazia  ali  todas  as  tardes  de  sexta-feira.  Mãos  trêmulas,  ali  sentada  em  silêncio,  parecia  louca,  pensavam  as  crianças  que  se  importavam  apenas  com  os  pãezinhos,  invariavelmente  distribuídos  depois  da  chegada  trem.  Estava  difícil  vir  à  estação.  Pesava  muito  a  idade. Parecia  cada  vez  mais  distante  a  velha  estação,  sem  movimento.  A  cidade,  agora, contava  com  um  moderno  terminal  de  ônibus  e  quase  ninguém  mais  usava  o  trem.  Ela  continuava  vindo,  todas  as  sextas  e  enquanto  esperava,  pensava  em  todos  os  momentos  de  sua  vida:  sua  infância, seus  pais,  amigas  e  bem  querentes.  Seu  casamento  com  o  rapaz  de  seus  sonhos,  seu  filho,  quando  garoto,  quando  rapaz.  Ela  vinha,  sempre,  pois  ele  prometera . . .  viria  sim  e  ao  chegar,  algum  dia, enquanto  saboreasse  seus  pãezinhos  prediletos,  ela  teria  muito  a  lhe  contar . . . nada  especial,  apenas coisas  de  mãe . . .

 

 

 

Recife,

Setembro de 2004

 

J. R. Araújo

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