Retornar para Mistérios

 

 

                                                                                                                                            J.R. Araújo

 

 

No Parque Nacional do Death Valley, na Califórnia, há um lago de nome Racetrack Playa (vista aérea na imagem ao lado), localizado na altitude de 1.130 metros acima do nível do mar, tendo 4.500 metros de comprimento no sentido norte-sul por 2.100 metros de largura no sentido leste-oeste. Todo o terreno é quase perfeitamente plano exceto por um levíssimo declive, pois a parte norte é menos de cinco centímetros mais alta que a parte sul do Lago. Racetrack Playa é sazonal, ficando inundado por completo no período das fortes chuvas, tanto pela precipitação direta como pela  água que escorre das montanhas que o circundam.

 

A região tem baixa incidência pluviométrica e isso faz com que o Lago se transforme em um leito seco por quase todo o ano. Durante as chuvas, sua superfície é preenchida por uma camada de aproximadamente 30 centímetros de profundidade, tornando-o vasto Lago de águas rasas. Após esse período, o Sol escaldante faz evaporar toda a água, deixando uma camada de lama bastante escorregadia que, ao secar, forma mosaico geométrico devido às rachaduras. Por isso o nome “playa, que significa “parte do leito de um lago que fica a descoberto quando as águas baixam.

 

Na face sul do Racetrack Playa há área montanhosa de onde se desprendem muitas pedras de dolomita que, durante as chuvas, rolam de sua encosta para dentro do Lago. A dolomita é rocha sedimentar constituída de carbonato duplo de cálcio e magnésio (CaMg(CO3)2 ) cristalizado e quase sempre associado e às vezes interestratificado com o calcário. A dolomita por si só já é um mistério, pois a ciência ainda não conhece os mecanismos associados à sua gênese geológica. Em Racetrack Playa o mistério aumenta ainda mais, pois essas pedras inexplicavelmente se movem através do seu leito, deixando trilhas da movimentação na lama.

 

O fenômeno foi observado há mais de cem anos por exploradores e garimpeiros que vagavam pela região. Entretanto, só começou a ser cientificamente estudado a partir de 1948, quando os geólogos Jim McAllister e Allen Agnew registraram em mapas o posicionamento das pedras e de suas trilhas. Ao longo dos anos, vários pesquisadores procederam em análises e verificações in situ do fenômeno das pedras que se movem. Um fato logo ficou comprovado: os movimentos das pedras não eram causados pela ação de pessoas ou animais. Como as pedras se movem apenas quando a lama do leito do Lago ainda está úmida e escorregadia, não se observa nenhuma pegada ou indícios da presença de pessoas ou animais gravados na superfície próxima ou ao longo das trilhas por elas deixadas. Assim, quando a lama seca e solidifica, o único sinal de perturbação deixado no leito do Lago  se deve às trilhas deixadas pelos movimentos das próprias pedras.

O Death Valley (Vale da Morte) é região inóspita e de difícil acesso. De início, a crendice popular atribuía tais movimentos à ação de forças sobrenaturais. Todo o fenômeno era envolvido numa atmosfera supersticiosa. Pessoas pensavam que a região era mal-assombrada por espíritos dos antigos indígenas que viveram nas proximidades ou que as pedras de Racetrack Playa eram milagrosas ou coisas assim. Com o passar do tempo várias hipóteses foram propostas como tentativa de explicar o fenômeno. Uma delas, a da ação direta ou assistida de seres humanos ou animais foi há muito descartada. Outra, a da ação magnética sobre as pedras também não é aceita como possibilidade viável, pois a ocorrência de campo magnético local é fator irrelevante1. A ação direta devido à gravidade não seria o caso, pois na maioria das vezes as pedras se movem para a face norte do Lago, que é um pouco mais alta na suave inclinação de toda a área. Duas, além dessas hipóteses, são as mais apreciadas pelos cientistas que tentam entender o que faz as pedras se moverem:

 

A primeira é de que as pedras se movem devido à ação dos ventos fortes durante o curto período da estação das chuvas. Isso explicaria o fato de que as pedras parecem, em sua maioria, seguir uma trajetória do  sul-sudoeste para a parte norte-nordeste do Lago2. Entretanto, esse não é o único padrão de movimentos observados entre as pedras do Racetrack Playa, pois nem sempre se deslocam nessa direção ou seguem trilha linear. Com frequência mudam a direção de seus trajetos em curvas suaves ou perfazendo o percurso de forma sinuosa, em ziguezagues, ângulos diversos e até voltando, em sentido oposto, ao movimento original.  Algumas se movem na direção leste-oeste ou vice-versa. Sabe-se, todavia, que o vento não é o fator único responsável pelo movimento das pedras. O atrito entre o lado inferior das pedras e a superfície do leito do Lago deve ser superado, para que elas possam se mover. Por isso, via de regra, admite-se que as pedras se movam somente quando o leito do Lago estiver úmido e escorregadio, na estação chuvosa.

 

       

De acordo com esta hipótese, as mudanças bruscas ou suaves na direção dos movimentos das pedras são explicadas pela ação de ventos fortes soprados em direções diversas e pela interação dos ventos com os diferentes formatos das pedras. Entretanto, por mais que a força de atrito entre as pedras e o leito do Lago seja diminuída pelo estado da lama escorregadia, ainda assim, para algumas pedras mais pesadas, fica difícil imaginar ventos tão fortes, capazes de movimentá-las. Algumas pedras são pequenas, com massa de alguns gramas, outras, porém, são mais massivas, chegando a pesar mais de 100 kg. Uma das pedras observadas pesava cerca de 320 kg! Para uma rocha desse porte, seu peso sobre a superfície é muito grande e os ventos observados em Racetrack Playa não atingem velocidades capazes de empurrá-la, superando o atrito entre ela e o leito do Lago.

 

A foto ao lado mostra duas rochas se movimentando paralelamente, mas em sentidos opostos. Observou-se que elas se moveram em períodos simultâneos. Nesse caso, como poderia o vento movê-las em sentidos opostos? (!!!)

O geólogo George M. Stanley publicou um artigo sobre o assunto em 1955, concluindo que algumas pedras eram demasiadamente pesadas e que o vento local, mesmo durante tempestades, não seria suficiente para movê-las. Os especialistas suspeitam, portanto, que exista mais de um fator que colabore com o movimento das pedras, pois o vento, por mais forte que seja, não conseguiria ser o único responsável pelos movimentos da forma como as trilhas parecem sugerir.

 

A segunda hipótese sugerida e também apreciada pelos especialistas é baseada na observação de que, logo após as chuvas e conseguinte evaporação da maior quantidade de água, a temperatura local diminui muito rapidamente e a umidade que permeia toda a superfície do leito do Lago se congela numa fina camada de gelo, por baixo das pedras. Essas lâminas congeladas eventualmente se quebram e deslizam na lama, carregando sobre si as rochas. Dessa forma, a força inercial pelo atrito seria diminuída sobremaneira entre as camadas de lama e do gelo, que certamente é bem menor que o atrito entre a camada de lama e da parte inferior da pedra.

Procedimentos efetuados no local em maio de 1972, pelos geólogos Robert Sharp e Dwight Crey, descartaram a hipótese de que pequenos pedaços de gelo deslizavam sobre a lama, carregando sobre si as pedras. Concluíram, entretanto, que se houver alguma influência do gelo, essa resultaria na formação de pequenos colares em torno da base das pedras.

Em 1995, o professor John Reid liderou grupo de estudantes envolvidos em programa de pesquisa da Universidade de Massachusetts e, com base em dados, concluiu que o vento e o gelo são os fatores principais para a movimentação das pedras. Essa parece ser a explicação mais aceita atualmente, embora ainda não se saiba as condições exatas para que os movimentos das pedras se iniciem e o que provoca esses movimentos.

 

 

As evidências indicam que algumas pedras se movem tão rápido quanto o andar de uma pessoa. Outra conclusão é a de que as rochas maiores percorrem trajetórias mais longas que as menores3. Entretanto, ninguém jamais as viu em movimento. Os indícios de seus movimentos residem nas trilhas gravadas na lama ressecada do leito do Lago. As trilhas são efêmeras. As marcas das pedras menores podem permanecer visíveis até as chuvas do próximo ano, quando serão definitivamente apagadas, enquanto as marcas das pedras mais pesadas deixam rastros de até 2,50 centímetros de profundidade e permanecem visíveis pelo período máximo de sete anos.

 

Algumas pedras, ao se moverem, formam diante de si um pequeno monte de terra, como na foto ao lado. Especula-se que ao diminuir a velocidade de movimento, imediatamente antes de parar, ocorre um aumento da força de atrito e o peso faz com que elas afundem mais na lama macia e empurrem-na um pouco, formando um montículo de barro à sua frente, indicando que essas pedras ficaram imóveis por um tempo. O mais perturbador é que é comum encontrarmos uma situação como essa na lama do Lago sem a correspondente pedra. Muitas pedras desaparecem, assim, do nada. Deixam nas trilhas a clara indicação de que, em algum momento, pararam e depois sumiram. Outro detalhe importante: como as pedras se movem da parte sul do Lago geralmente nas direções norte ou nordeste, seria de se esperar que nas margens do Lago, nessas posições, houvesse depósito de pedras. Mas inexplicavelmente não é isso que acontece. Nenhum amontoado de pedras se encontra nas margens norte e nordeste do Lago, muito menos em qualquer de seus lados. Algumas pedras são identificadas nas laterais do leito, mas muitas delas simplesmente desaparecem!

 

 

O movimento das pedras é bastante imprevisível. Umas  se deslocam com maior velocidade, outras bem mais lentamente; umas em linhas quase retas, enquanto outras fazem muitas voltas como na imagem ao lado. Algumas percorrem trajeto curto e outras foram monitoradas por um trajeto de mais de 880 metros, e, ainda, as que foram encontradas a 3.200 metros distantes da encosta de onde se desprenderam4.

Atualmente toda Racetrack Playa é protegida como área de preservação nacional e sítio de interesse científico, incorporada ao Parque Nacional Death Valley e vigiada constantemente por membros da guarda ambiental. Cada vez se torna mais difícil ter acesso ao local para estudá-lo. Apenas pessoas autorizadas podem adentrar seus limites, incluindo-se aí pesquisadores cadastrados. As pedras são individualmente identificadas com números e, seguindo a tradição, recebem nomes femininos. Têm suas trilhas mapeadas com GPS e são objeto de estudos por parte de geólogos, físicos e especialistas em Geociências.

O leito do Lago é protegido para que se mantenha seu estado o mais natural possível. Para isso, a ninguém é permitido se aproximar dele enquanto a lama estiver úmida e, nesta condição, não se pode andar pela superfície em lugar algum. Nenhuma pedra pode ser retirada do local sob qualquer circunstância.

O mistério das pedras que se movem no Racetrack Playa está longe de ser desvendado. Ninguém ainda foi capaz de testemunhar esses movimentos ou de capturá-los em câmeras de filmagens. Um enigma fascinante esperando para ser explicado. Importa dizer que a elucidação e o entendimento completos dos fenômenos naturais, a exemplo desse, no Parque Nacional do Death Valley, nos traria melhor compreensão da natureza que nos cerca. Sem dúvida, as respostas encontradas e certificadas ampliariam nossos conhecimentos, mas, ao mesmo tempo, nos tirariam o romantismo que os mistérios certamente proporcionam.

 

Recife, 28/08/2011

 

e-mail do autor

zecaro108@yahoo.com.br

 

Agradecimentos pela Revisão do Texto

Kaliana Polihedra

_________________

Citações

1.    Relatório da pesquisa realizada no local por um grupo liderado por pesquisadores da Academia de

       Ciências Lunar e Planetária - subsidiária do Centro Goddard de Vôos Espaciais em Greenbelt, Maryland.

       Para ler este artigo acesse o endereço   http://geology.com/nasa/racetrack-playa/

 

 

2.    The Sliding Rocks of Racetrack Playa - Paula Messina (uma das principais pesquisadoras do assunto).

       Para ler este artigo acesse o endereço   http://geosun.sjsu.edu/paula/rtp/intro.html

 

 

3.    http://geology.com/nasa/racetrack-playa/

 

4.    Paula Messina - http://geosun.sjsu.edu/paula/rtp/intro.html

 

 

Créditos pelas fotos - embora tenhamos utilizado imagens  encontradas  nos sites indicados abaixo,

                                            não significa, necessariamente, que os mesmos detenham os direitos autorais

                                            sobre as fotos.

 

Fig. 1 - http://www.geosci.unc.edu

Fig. 2 - http://mmmgroup.altervista.org

Fig. 3 - http://www.readmorewikipedia.com

Fig. 4 - http://en.wikipedia.org/wiki/Sailing_stones

Fig. 5 - imagem muito utilizada em vários sites e blogs (domínio público)

Fig. 6 - http://mmmgroup.altervista.org

Fig. 7 - http://en.wikipedia.org/wiki/Sailing_stones

Fig. 8 - http://mmmgroup.altervista.org

 

Visitante número

Web Site Hit Counters
HTML Hit Counter

 

____________________________________________________________  

  © Copyright 2011/2012 - Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução do   

  texto aqui  contido sem a prévia permissão do autor.