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População e meio ambiente

                                                               J. R. Araújo

 

 

Por mais otimistas que sejam, as projeções dos  ambientalistas em relação ao homem e  o  meio ambiente apontam  para   um  estado  de crise  global.  Quando  avaliamos  em  que  termos essa crise  se estabeleceria,  vemos  que  os  recursos  de que  dispomos, energia  e matéria, estarão  no  centro  do problema.  Um  estado  crítico de  proporções  globais  seria desfechado, quando   os  suprimentos   vitais   de energia    matéria  não  mais  pudessem atender  à  demanda  causada  pelo  crescimento  populacional. Nesse  contexto,  energia  e matéria podem assumir as formas de alimento  para  os  organismos  vivos  ou calor,   força motriz  e matéria-prima  para  propósitos industriais. Um  estado  de  crise  global certamente envolverá energia  e/ou  matéria, pois é certo que esses recursos são limitados, enquanto a demanda por eles parece crescer  ilimitadamente,  quando comparada com suas disponibilidades. Em  verdade, o crescimento de  uma  população será sempre limitado por fatores bióticos ( capacidade de adaptação da espécie, mobilidade, meio de reprodução etc.)  e  abióticos ( suprimento  de  luz, calor, alimentos, clima etc.). Quando a relação população / recursos  de  uma espécie  em  um  meio ambiente é perturbada, a população  oscila  em  torno  de  uma  posição  até alcançar  uma estabilidade,  chamada  de Equilíbrio Dinâmico  da espécie,  como  mostra   o  gráfico abaixo, onde temos população no eixo vertical e tempo no horizontal.

                                    

No  Equilíbrio,  o  fator  população / recursos  é  restabelecido,   quando  a  perturbação não  foi  muito  além da  Capacidade  de Sustentação  do  ambiente,  permitindo, nesse caso,  a  regeneração  desse  fator.  Caso contrário,  temos   uma  situação   mais  grave. Uma  crise  ambiental   pode  assumir  diversas  proporções; variando  desde  o  alcance local,  como  a  poluição  dos  reservatórios  de  água  potável  ou  o  esgotamento da produção  de  energia  elétrica  em  uma  cidade,  até  a  ameaça  de  destruição  total  da biosfera. Todo problema  parece  apenas  uma  questão  de  tempo  e  o  crescimento populacional  seria  o  ponteiro  desse cronômetro.  Ao  analisarmos  a  taxa de crescimento populacional, podemos como a população mundial cresceu muito pouco, ao longo  de  sua  história  conhecida, até 1800. No Século XX o crescimento  foi  fenomenal, saltando de 1,5 para mais de 6,5 bilhões  de  pessoas. A continuar  com  essa  taxa  de crescimento, em 35 anos a  população  mundial  alcançará  algo  em  torno  dos  15 bilhões e em um século estaríamos em 35 bilhões ! Nesse patamar, estaremos à beira de um colapso, visto que a disponibilidade de recursos  está  diretamente interligada  com  esse fator, população, e essas  condições  excedem a Capacidade de Sustentação do planeta.

 

                       

A  relação  entre  população  e  recursos  disponíveis  sempre   foi  objeto  de  preocupação e estudos. Thomas Malthus   foi   um  desses  estudiosos  e  publicou  seu  famoso  trabalho “Um  Ensaio  sobre  o Princípio  da  População”  em  1798.  Nesse  livro,  ele  mencionou que  a  população  humana   tende  a crescer  exponencialmente,  enquanto  a  produção  de recursos   utilizados   cresce    aritmeticamente.  Ele predisse   que   a    relação,   recursos / população,   levaria   à   degradação   de   áreas   agriculturáveis, fome   em   larga   escala, epidemias  incontroláveis  e  eventualmente   guerras  e  que   na   ausência  desses  eventos catastróficos, a  população  cresceria  ilimitadamente.  Seu  trabalho   foi   uma   resposta  à idéia  predominante,  de  então,  de  que  o  homem  teria  controle  infinito  sobre  a natureza.

 

Entretanto,  o  modelo  mauthusiano,  também  conhecido como   de  Crescimento Ilimitado, conduz   a   resultados irrealistas, senão  vejamos:

 A  equação  diferencial   que   descreve   o  crescimento  de uma  população  é 

 

                        onde R é a taxa de reprodução.

                                              

 Uma solução geral para a equação acima é dada por    ,

onde y0 é a população em um dado momento.

Tomando  o  ano  2000  como  base,  y0 = 6.000.000.000 ou   6.0  x  109,   que   é   a população   nesse   ano,   e  assumindo   que  esta  dobre  o  valor  a  cada  50 anos, teríamos que  no  ano  t = 2800  a  população alcançaria  a incrível  cifra  de  400.000.000.000.000 ( 4.0 x 1014 )  ou  quatrocentos  trilhões !  Isto  significa uma densidade demográficde um habitante para cada metro quadrado, o que incluiria a superfície dos oceanos ! 

Com   resultados  como   esses,  certamente   que  o   modelo  precisaria   de  alguns  ajustes.  Foi  então  que em  1838, o  físico  e  matemático   belga   Pierre  François  Verhulst  sugeriu mudanças  no modelo para eliminar  os  resultados  indesejáveis  do  “Crescimento Ilimitado”.  Ele  sugeriu  que  quando  a  densidade da população  aumentasse,  os  indivíduos  perderiam  mais  tempo  a  procura  de  recursos  vitais,  lutando por espaço  etc.  Devido ao estresse causado pelas condições de vida, a taxa de reprodução ( R ) diminuiria com um  aumento  concomitante  da  taxa  de  mortalidade (  ). Assim  a  equação  diferencial  que  descreve  o  crescimento  de  uma  população  passaria  a  ser  descrita  como:

                                                                   

Notemos   que  a   taxa   de   mortalidade,   , contribui  negativamente  na  equação  e  que assume valores  pequenos, quando  y  é  pequeno  e  valores  elevados  para  uma  população (y) numericamente elevada.  Essa  equação  pode  ser  escrita  de  várias  maneiras,  o  que proporciona  diferentes interpretações.  A   forma :

                                                        

é  bastante  conveniente,  pois   introduz   o   fator   ,  que  representa  Capacidade  de Sustentação do   meio-ambiente,  fator  muito  importante,  utilizado  na  Ecologia. 

Além  de  evitar  a  explosão  de  valores,  a  equação   acima   nos   mostra   que   para  uma população (y) pequena  a  Capacidade de Sustentação  (K) do  meio  é  grande  e  vice-versa.

Ainda  mais:                   

1      quando  a  variação  da  população  em  um  período  ( t )  for  crescente,    será  positivo,  significando  que  a  população aumentou  e  0 < y < K ,  i.e.,  a  população  aumenta  conforme  a  capacidade do  eco-sistema; 

2      quando  a  variação  da  população  em  um  período  ( t )  for decrescente,  será negativo,  significando  que  a   população   diminuiu  e  y > K,  ou   que  a   população cresce  além  do  que  o  ecossistema  possa  suportar.

A   Equação  de  Verhust,  acima,  também  é  conhecida   como  a   Equação  da  Logística  pode   ser aplicada   a   qualquer   análise  populacional,   desde   a   espécie   humana  até  colônias  de  bactérias. O gráfico  dessa  função  apresenta  o  aspecto  interessantíssimo  de  um  fractal.  Inscrevemos  a  população no  eixo  vertical  e  um  parâmetro  que  pode  ser  a  Capacidade  de  Sustentação  do  Sistema  ( K )  ou  a taxa   de  reprodução  ( R )   no   eixo horizontal.

 

                  

 

Vemos  acima  que  para  um  parâmetro  entre   0   e   1,  a  população  vai  à  extinção.  Note como  as  bifurcações   se  repetem,  no   valor  de  R  (ou  K)   igual  a   3,5 ,  como  mostra  o detalhe  do  gráfico  abaixo.

 

                        

 

A  cada  mudança  do  parâmetro, a  população  aumenta  ou  diminui,  conforme  o  caso, até  atingir   um valor  onde   ocorre   uma bifurcação,  denotando   que  a  população cresce  e decresce em  períodos (meses  ou  anos) alternados,  dependendo  do  ciclo  vital da espécie. Um  aumento  do  parâmetro, acarretará, em  um  certo  ponto, outras  duas bifurcações  e  um  aumento  ou  diminuição  ( em  menor escala ) dos  valores  da população.  Aumentando  os parâmetros ainda mais, teremos o aparecimento periódico  de mais  bifurcações  em números  de  4,  8,  16,  32 . . .   e   a   partir  daí,  o   gráfico apresenta um   comportamento   caótico,  significando   que  uma   variação muito  grande  nos fatores  bióticos  ou abióticos  leva  a variações  imprevisíveis  na  população  da  espécie, desde  uma  superpopulação  e advento de   fome,   doenças   e conflitos   pela sobrevivência   até   uma   possível   extinção.  Após  sucessivas mudanças  no  parâmetro ( fator biótico ou abiótico ) em  questão, o  crescimento  populacional  se  torna muito sensível  a  essas variações  e  as  alternâncias bruscas,  mas  periódicas   e   regulares, entre crescimento  e   decrescimento, assume,  no  gráfico, o aspecto de fractal. Podemos entender  que  a  cada  mudança crítica de  um  parâmetro,  variações   cada   vez  mais freqüentes   da   população  induzem   a   novas  bifurcações,  indicando  descontinuidade na  taxa  de  crescimento.  Em   dado momento,  após   algumas  mudanças  freqüentes   no parâmetro,   o  sistema   apresenta   comportamento  totalmente  aleatório,  caótico,  com total   imprevisibilidade,  isto  é,  alternâncias aleatórias  no  número de indivíduos. Dessa forma podemos ver que é  de grande  ajuda, o  emprego  de  modelos  matemáticos  para entendermos  fenômenos  naturais. 

Embora  extremamente  simplificado, pois passa ao  largo das  inúmeras e complexas interações dos  diferentes  fatores  bióticos  e abióticos,  o  modelo  nos  dá  uma visão panorâmica   das  possibilidades,  o   que  nos  permite  o  planejamento  do  uso  adequado dos  recursos  disponíveis.  Assim,  podemos  entender  a  delicadeza  das relações  entre população  de  diferentes  espécies  e  o  meio  ambiente. Quanto  a  nós,  seria  prudente a observação   de   procedimentos   básicos,  para   a   preservação   de  recursos  renováveis ou   não  renováveis   da   biosfera,  com    um    mínimo   de   interferência   nos  diferentes biomas,   respeito   pela    vida    de    todas    as espécies e   desenvolvimento   sustentável, como   forma  de  garantir   uma   melhor  qualidade  de  vida  e, como  espécie,  nossa própria  sobrevivência.   

 

 

Recife,

Outubro 2004

 

J.R. Araújo

e-mail - zecaro108@yahoo.com.br

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Bibliografia:

James Gleick, Caos – A Criação  de  uma  Nova  Ciência –  Editora Campus Ltda. - 1990

Amos Turk  e outros  - Tratado  de  Ecologia – Nueva Editorial Interamericana  S.A. 1976

Arthur N. Strahler - Geography and Man’s Environment – John Wiley & Sons, Inc.- 1977

Outras  fontes  para  consultas  na  Internet:

International Society of Malthus http://desip.igc.org/malthus/

 

Pierre Francois Verhulst :

             http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/~history/Mathematicians/Verhulst.html

 

Applications of  Differential Equations - San Joaquin Delta College,

             http://www.ugrad.math.ubc.ca/coursedoc/math100/notes/mordifeqs/logistic.html

 

Population Dynamics University of South Alabama http://artemis.wszib.edu.pl/~sloot/3.html

   

 

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