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J. R. Araújo
Na manhã do dia 30 de Junho de 1908 às 7:15 minutos, os residentes na região próxima às montanhas a noroeste dos Lago Baikal observaram uma enorme rastro de luz azulada, quase tão brilhante quanto o sol, que se movia através do céu. Alguns minutos depois, houve um clarão seguido de um grande estrondo que ressoou por toda a região. Segundo testemunhas, a explossão causou ondas de choque tão fortes que derrubou muitas pessoas ao chão e quebrou vidraças a muitos quilômetros de distância. A maioria das pessoas puderam perceber apenas o som ensurdecedor produzido pela explosão e o tremor que se seguiu. Na ocasião, ss tremores registrados nas estações sismicas da Europa, marcaram 5.0 da escala Richter em algumas áreas. e produziu flutuações na pressão atmosférica que foram registradas pelos recém inventados barógrafos situados na Grã Bretanha. Durante algumas semanas, o céu noturno ficou tão brilhante e claro que era possível ler um jornais e revistas nas noites seguintes e que ficaram conhecidas como "noites claras". Nos Estados Unidos, nos Observatório Astrofísico Smithsoniano e Observatório do Monte Wilson, durante muitos meses, foi observado um decréscimo na transparência da atmosfera, o que chegou a dificultar o desempenho de seus sensíveis e potentes telescópios em algumas observações astronômicas. Apesar da grandiosidade do evento e suas conseqüências em lugares distantes, surpreendentemente, houve muito pouco interesse científico acerca do impacto na época, possivelmente devido ao isolamento da área. Se houvesse alguma expedição um pouco de imediato ao local do impacto, talvez os dados não se tivessem perdido. Os anos seguintes foram bastante caóticos com distúrbios tais como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil Russa, as quais, possivelmente, destruíram evidências do impacto em toda a região.
Leonid Kulik (1883-1942) A primeira expedição científica chegou ao local em 1921, mais de uma década após o evento, organizada pelo famoso geólogo e mineralogista russo Leonid Kulik que visitou a bacia do Rio Podkamennaya Tunguska, para um reconhecimento na área, patrocinado pela Academia Soviética de Ciências. Nas primeiras pesquisas efetuadas no local, Kulik deduziu que a explosão foi causada pelo impacto de um meteorito gigante. Nos anos que se seguiram, Kulik tentou por todos os meios conseguir patrocínio oficial a uma expedição específica visando a explosão de anos anteriores. Após muito esforço, o grupo de Kulik retornou ao local em 1927, agora com o intuito de estudar o fenômeno ocorrido em 1908 (1). Para suas surpresas, nenhuma cratera foi encontrada. Havia, ao contrário, uma região de árvores derrubadas num círculo aproximado de 50 km. No ponto central, onde havia ocorrido o provável impacto, pouquíssimas árvores ainda permaneciam em pé, com seus galhos e cascas destruídas. As que estavam mais longe, tinham sido derrubadas numa direção divergente do centro, numa formação semelhante aos raios dispostos numa roda de bicicleta, pelo que se podia observar na visão de quem estivesse no solo. Durante os dez anos seguintes, Kulik empreendeu mais três expedições na área. Em 1938, ele conseguiu que se fizesse um levantamento aero-fotográfico do local, o qual revelou que o evento derrubou as árvores numa disposição geométrica semelhante a uma grande borboleta.
foto 2
foto 1 Apesar da grande devastação, nenhuma cratera foi, todavia, encontrada. Logo chegou-se à conclusão de que a explosão tenha ocorrido na atmosfera, a algumas centanas de metros acima da superfície. O local exato onde a explosão ocorreu pôde ser facilmente encontrado, devido à disposição das árvores derrubadas. As fotografias em ambos os lados foram feitas em 1927, pela expedição organizada pelo Prof. Kulik.
Estima-se que a explosão derrubou cerca de 80 milhões de árvores, numa área de aproximadamente 2.150 quilômetros quadrados. A ausência de uma cratera no ponto do impacto, de vestígios materias no solo além das árvores derrubadas, suscitou muitas hipóteses para desvendar o mistério envolvendo o que ocorreu em Tunguska, numa manhã de Junho em 1908.
Fim do mundo - para aqueles que, de alguma forma, presenciaram o que aconteceu em Tunguska, a primeira impressão foi que o mundo estava em seu final. As pessoas simples, nas localidades em que a grande explosão foi ouvida, nas aldeias de Korelina e Kirensk por exemplo, formaram uma comissão e foram até a autoridade eclesiástica local, para indagar-lhe se o mundo estava prestes a se acabar e como eles deveriam proceder, em vista de uma iminente salvação religiosa. A medida que os dias passaram, essa hipótese, do fim do mundo, retrocedeu e novas explicações para o evento tiveram de ser aventadas.
BOMBA H natural - Alguns astrônomos propuseram que o evento em Tunguska foi causado por uma explosão nuclear natural. A explicação é de que um cometa contendo deutério tenha colidido com a área. Hidrogênio (H) é composto por um Próton e um elétron, enquanto o Deutério contém um Próton, um Neutron e um elétron. Serge D'Alessio e A. A. Harms levantaram a hipótese de que um cometa contendo significativa quantidade de Deutério penetrou na atmosfera terrestre, quando sofreu um processo de fusão nuclear, deixando Carbono - 14 como resíduo. Em 1990, Cesar Sirvent propôs que um cometa com uma alta concentração de Deutério pode ter explodido como se fora uma bomba de Hidrogênio. De início o cometa poderia ter explodido em conseqüência de atrito com a atmosfera, e logo depois essa primeira e pequena explosão tenha causado uma bem maior, de natureza termo-nuclear. Isso explicaria a relação desproporcionalmente alta entre a energia eletromagnética / energia cinética encontrada nesse evento. Há uma inconsistência, entretanto, devido ao fato de que os cometas são pobres em deutério e pelo fato de que condições de temperatura e a pressão geradas pela primeira explosão, não sejam suficientes para iniciar uma reação termo-nuclear. Num artigo anterior datado de 1989, todavia, Serge D'Alessio e A. A. Harms adotaram a hipótese de um cometa contendo alguma quantidade de Deutério, mas concluíram que a energia liberada seria insignificante para causar uma reação nuclear.
Buraco Negro - Em 1973, os físicos Albert A. Jackson e Michael P. Ryan da Universidade do Texas propuseram que o evento em Tunguska foi causado por um "pequeno buraco negro" com uma massa aproximada entre 1020 e 1022 gramas ( o algarismo um seguido de vinte ou vinte e dois zeros ! ) (2). Eles explicaram que ao se aproximar da Terra, esse buraco negro causou uma explosão, penetrou na crosta da terra, atravessou-a e saiu do outro lado. Essa hipótese foi muito divulgada nos meios de comunicação e tornou-se bastante popular. Logo surgiram muitas críticas a essa hipótese, com base no fato de que se tal evento realmente tivesse ocorrido, ao sair do outro lado após atravessar a Terra (com uma explosão na entrada), o buraco negro teria causado uma segunda explosão na saída. Não existe, contudo, nenhuma evidência da ocorrência dessas duas explodões, quase simultâneas e, por isso, essa hipótese não obteve aceitação da comunidade científica. Infelizmente essa hipótese está errada desde o início mesmo de sua formulação. Apenas estrelas com massa quatro vezes maior que a massa do sol, se tornarão, ao final de seu ciclo, um buraco negro. Nesse caso, a massa do Sol é da ordem de 2 x 1033 gramas (o algarismo dois seguido de trinta e três zeros). Como uma estrela com a massa da ordem de 1020 ou 1022 gramas poderia se tornar um buraco negro ? Ela seria uma excelente candidata a se tornar uma estrela de nêutrons. Além do mais, um buraco negro jamais se aproximaria da Terra. Na verdade, antes disso acontecer, ele engoliria toda a nossa galáxia com suas milhares de estrelas, juntamente com seus sistemas planetários ! Essa hipótese do buraco negro é mais que bizarra, é um equívoco grosseiro.
Antimatéria - há uma hipótese formulada em 1965, pelos pesquisadores Clyde Cowan, C. R. Atluri e W. F. Libby (3). Eles afirmaram que o evento de Tunguska foi causado por um aglomerado de anti-matéria proveniente do espaço, que teria se chocado com os gases de nossa atmosfera causando a aniquilação de massas iguais de matéria e anti-matéria resultando na liberação de grande quantidade de energia na forma de radiação gama. Até o momento, todavia, não há evidências de que quantidades significativas de anti-matéria exista nessa região do universo, pois caso isso fosse possível, emissões de raios gama poderiam ser observadas. Nunca houve qualquer observação astronômica de emissões dessa natureza. Além do mais, devido aos efeitos vistos na área de Tunguska, podemos deduzir que uma explosão causada por uma interação matéria / anti-matéria somente seria possível com uma quantidade muito grande dessa última. É praticamente impossível que um objeto dessas dimensões e massa possa penetrar tão profundamente em nossa região do universo sem ser atraído e completamente aniquilado pela grande quantidade de matéria no meio interestelar.
Torre de Wardenclyffe A Torre Wardenclyffe - Por volta de 1900, o cientista e inventor iuguslavo Nikola Tesla (1856-1943) desenvolveu um projeto para transmissão de energias de alta-potência, pelo uso de transmissores sem fio. Segundo Tesla, altíssimas quantidades de energia elétrica poderiam ser direcionadas e transmitidas a qualquer lugar da terra, com objetivo pacífico ou militar. A partir de 1901, foi iniciada a construção de uma torre de transmissão no estado americano de Long Island. Oliver Nichelson segeriu que a explosão em Tunguska pode ter sido causada por um esperimento efetuado por Tesla nos laboratórios que incluíam a imensa torre (4). Segundo Nichelson, Tesla teria utilizado a torre para transmitir uma grande quantidade de energia sobre o Pólo Norte, usando a atmosfera como meio ressonante, o que aumentaria a potência energética do raio emitido a valores inimagináveis, que causariam efeitos diversos, inclusive semelhantes à luminosidade das auroras boreais. Ainda de acordo com Nichelson, o experimento fugiu ao controle de Tesla, o que causou a grande explosão em Tunguska. Todavia, a famosa Torre de Wardenclyffe jamais foi concluída devido a dificuldades financeiras e, portanto, nenhum experimento teria sido efetuado com seu uso. Além disso, não há qualquer evidência de que Tesla tenha realizado alguma transmissão sem fio que envolvesse energia de alta potência através de longas distâncias.
Queda de um OVNI - O escritor de ficção científica e engenheiro soviético, nascido no Cazaquistão, Alexander Kazantsev (1906-2002) escreveu uma novela em 1946, na qual uma nave espacial alienígena, a procura de água potável do Lago Baikal, próximo a Tunguska, explodiu no ar matando seus ocupantes. Ele escreveu essa estória após ter visto os efeitos da explosão atômica numa visita à Hiroshima, no Japão. Muitos eventos no conto de Kazantsev foram mais tarde confundidos com os acontecimentos reais ocorridos em Tunguska. Os entusiastas dos fenômenos OVNI, propõem que o evento em Tunguska foi causado por uma explosão de uma nave alienígena. Em 2004, um grupo comunicou a recuperação de partes de uma espaçonave. A área, entretanto, fica muito próxima ao Cosmódromo de Baikonur e desde os anos 60 tem sido constantemente contaminada com a caída de partes de foguetes e naves russas nos lançamentos e aterrissagens dos inúmeros testes e vôos das missões do programa espacial da antiga União Soviética. Nada substancial até agora foi encontrado ou demonstrado que indique a validade da hipótese de um OVNI no evento em Tunguska.
Meteoróides - são corpos rochosos
provenientes do espaço, de tamanhos variáveis entre um grão de areia até cerca
de 20 ou 30 metros de diâmetro. Todos os dias milhares de meteoróides penetram
na atmosfera terrestre. Felizmente a grande maioria deles queima ou explode
completamente ao entrar na atmosfera. Alcançam altas velocidades e, ao
moverem-se através do “fluido gasoso” que envolve a Terra, geram uma espécie de
onda de choque em sua parte frontal. Como raramente têm forma aerodinâmica, essa
onda de choque frontal causa uma enorme pressão, devido à alta velocidade, e
isso gera uma grande quantidade de calor o que faz com que se desintegrem (por
queima ou explosão), antes de atingirem o chão. Durante o trajeto, a combustão a
que são submetidos, faz com que emitam um rastro de fogo, a que chamamos de
“estrela cadente”. Quando grandes o suficiente, não queimam completamente,
atingem o solo em grande velocidade, explodem e causam uma cratera no local do
impacto. Um meteoróide com a dimensão de entre 20 a 30 metros de diâmetro,
causaria uma explosão comparável a da bomba atômica lançada sobre Hiroshima.
Todavia, dificilmente se desintegraria totalmente, e pedaços consideráveis
atingiriam o solo, deixando vestígios. Nada do tipo foi observado em Tunguska, e
essa hipótese ainda não é consensual. Cometa – um cometa é constituído de material congelado, gás e algum tipo de rocha de baixa densidade ou bastante porosa. Ao penetrar na atmosfera, o súbito aquecimento faria com que o cometa explodisse, deixando no ar grande quantidade de poeira e partículas de gelo, flutuando e brilhando por alguns dias. No evento em Tunguska, foi observado um brilho no céu que perdurou por alguns dias, visível até em regiões da Europa. Os críticos desse modelo, argumentam que um cometa teria se desintegrado nas camadas superiores da atmosfera, enquanto o objeto de Tunguska atravessou as camadas superiores, alcançou as superiores e explodiu.
Asteróides – são bem maiores que os meteoróides e são classificados em tamanhos a partir de 500 a 1000 metros (1 Km) de diâmetro. São compostos de diferentes tipos de rochas e existem em números incontáveis no universo. Um asteróide de tamanho médio, tem uma massa entre 4% a 6% da massa da lua. Ao entrar na atmosfera, provavelmente não queimaria por completo, e o material restante colidiria com o solo em grande impacto e causaria uma enorme cratera. Como uma cratera jamais foi encontrada, os proponentes dessa hipótese sugerem que um asteróide de material poroso tenha penetrado e explodido nas camadas superiores da atmosfera (5).
A explosão em Tunguska liberou uma quantidade de energia estimada em cerca de 20 megatons de TNT, ou quase 1000 vezes mais potente que a bomba lançada sobre Hiroshima. Apesar de que, tudo indica, tenha ocorrido muitos metros acima da superfície, a explosão mediu 5.0 na escala Richter. Calcula-se que derrubou cerca de 80 milhões de árvores, numa área de 2.150 quilômetros quadrados. Quase um século depois, fotografias feitas por satélite mostram uma área de floresta de baixa densidade de árvores, no que forma uma imensa clareira (6). A causa mais provável parece ter sido um meteoróide, embora a nenhuma conclusão se tenha chegado.
Recife, 07/03/2008
J.R. Araújo e-mail : zecaro108@yahoo.com.br
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Foto de Kulik originalmente publicada em - www.tinet.org Fotos 1 e 2 do local feitas pela expedição de Kulik - imagens de domínio público na www. Torre de Wardenclyffe - originalmente do site - www.eng.utah.edu Imagem terra-meteoro - Ideariumperpetuo - J. R. Araújo
Referências 1 - Kulik, L. A. , Akademiia Nauk S.S.S.R., Co. R. (Doklady), No. 23, 399 (1927). 2 - Albert A. Jackson and Michael P. Ryan - “Was the Tungus Event due to a Black Hole?” Nature, vol. 245, September 14, 1973, pp. 88-89. 3 - Cowan, C. , Atluri, C. R. , and Libby, W. F. , Nature, 206, 861 (1965). 4 - Detalhes sobre o assunto no site - www.frank.germano.com/tunguska.htm 5 - Shoemaker, Eugene - Asteroid and Comet Bombardment of the Earth, vol. 11, US Geological Survey, Flagstaff, Arizona: Annual Review of Earth and Planetary Sciences, (1983) 6 - Nemtchinov, I.V.; C. Jacobs e E. Tagliaferri (1997). "Analysis of Satellite Observations of Large Meteoroid Impacts". Annals of the New York Academy of Sciences 822: 303-317.
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