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Os  caminhos  da  Natureza 

                                                                                                                J.R. Araújo

 

 

È uma pena que nos cursos de Cálculo e  Física,  nas áreas de Ciências Exatas, pouca ou nenhuma atenção se dê a um assunto apaixonante e de vital importância àqueles que pretendam ter um entendimento mais profundo dos processos naturais. Quer por um despreparo dos docentes, que ainda  não atinaram  para a importância  do assunto,  quer pelo fato desse  assunto  ser tratado  nas páginas finais da grande maioria dos livros textos, o que aparentemente lhe confere um falso status de irrelevância.  Refiro-me ao Cálculo das Variações, assim conhecido em Matemática ou Princípio da Ação Mínima na Física.

 

 

Cálculo das Variações

                                                                             

Em  1740,  o   matemático  suíço  Leonhard   Euler

( 1707 - 1783 )   publicou    seu    famoso   trabalho

Methodus    inveniendi     lineas    curvas”     que,

pode-se    dizer,   iniciou   os   estudos    acerca  do

Cálculo das Variações.

 

 

 

Quais  dos  caminhos  entre  e  b dado  pelas funções f,  g,  h ( no gráfico  ao  lado) é o  mais longo  ou  o  mais  curto ?

A  função  J  definida  pela  integral abaixo teria  que  assumir  um  valor extremo (máximo, mínimo  ou  um  ponto  de inflexão). A função dentro da integral,  f ,  depende  das variáveis x, y, e da variação de  y  em  relação à x, ou na  linguagem  do Cálculo  (dy/dx)  que é  a  derivada  de  y  em relação  a  x, embora, à  época,  a  própria  dependência  entre  y  e  x ou  y(x),  nesse  caso  particular,  fosse desconhecida.

 

                                                                       a 

                                               J =    f (x, y, dy/dx) dx                Eq. 1

                                                                                        b            

   

 

 

Significa  que  quando  a  função  f  for  integrada  entre  os  pontos  a  e  bJ poderá  assumir  um  ponto  extremo.  

Após intenso trabalho, Euler  encontrou  uma  equação  em   f que  podia satisfazer  as condições  que  pudesse  tornar  J  um  extremo.  Para simplificar,  façamos  dy / dx Yxe  esta  equação  assume  a  forma:                 

 

                                   d f    _     ∂ f    =  0 ,                              Eq. 2             

                                                               d y       d x   ∂yx                                    

                           

 que  é  conhecida  como  a Equação  de Euler.

 

 

 

Talvez  a  aplicação  mais  simples  do  Cálculo  das  Variações  seja  a determinação  do caminho  mais  curto  entre  dois  pontos.

 

 

  

  

   Considere  o  gráfico  ao  lado. 

 

   Seja  dy = y2  -  y1  e   dx = x2 – x1.

      

   Fazendo uso do Teorema de Pitágoras 

   temos que           

   (ds)2 = (dx)2 + (dy)2     ou     

                

            ____________         ____________

ds=(dx)2 + (dy)2  = 1+ (dy/dx)2 dx = [1+ (dy/dx)2]1/2 dx

 

usando essa expressão como  f (x, y, dy/dx) na  eq. 1  temos:

 

                  x2

J =        [1 + (dy / dx)2]1/ 2   dx.                           Eq. 3

                     x1

 

 

Para  que  J seja  um  mínimo,  essa  integral  dá  como  resultado  a  conhecida equação

               

                           Y(x) = mx + b  

 

que  é  a  equação  da  linha  reta,  onde  m = dy / dx   é   a  inclinação (derivada)  da reta  e  b  é  onde  a  reta  intercepta  o  eixo - yy’mostrando assim, por  meio  do Cálculo  das  Variações  que  o  menor  caminho  entre dois  pontos  é  uma  linha  reta, em   consonância  com  a  Geometria.

 

 

O Princípio da Ação Mínima

 

O Cálculo  das  Variações  possibilitou  a  solução de  muitos  problemas  da Matemática  e  da Física.  Apesar de inicialmente ter sido estudado no âmbito da Matemática, foi um problema da Física  que estimulou  as  pesquisas que fizeram surgir o  Cálculo  Variacional.  O  problema da  Braquistócrona  ou  da  trajetória  utilizada por  uma  esfera  ao  deslizar num  plano,  no  menor intervalo  de  tempo   possível. 

Surge  então,  a  contribuição  importantíssima de

Joseph-Louis Lagrange  (1736-1813), um   físico-

matemático   italiano   nascido   em   Turim,   que

nessa    época   pertencia   à   França.    Qualquer

problema   em   Mecânica   pode   ser   resolvido

quando  podemos  determinar  as   equações   do

movimento do sistema consideradoImportantes

aplicações  ocorrem  quando  o  integrando   f   é

substituído por  uma  expressão conhecida como 

Lagrangeano   (L)   definida  como  a  diferença

entre as energias cinética e  potencial  do  sistema,

         

        

                                          L =  T – V                                           Eq. 4

 

     Fazendo  t  (tempo)  como  a  variável  independente  e  x ( t (localização do sistema) como a  variável  dependente  do tempo  ( t ),  temos  que  dx/ dt  é  a  velocidade  da  maneira  usual

  Lagrangeano  do  sistema  é  dado  por

 

   L ( x, dx/dt, t )  =   d        ∂ L          _     ∂ L                             Eq. 5

                                  d t   ∂ ( dx/dt )           ∂ x 

 

  e  é  conhecido  como  a  Equação  Lagrangeana  do  Movimento.

 

                             t2  

  A integral            L ( x, dx/dt, t ) dt 0                    Eq. 6

                                             t1

 

entre  os  instantes  t1   e   t2    é   conhecida  como  a  Integral  da  Ação. 

 

Ela  garante  que  os  processos  em  qualquer  sistema  ocorrem  quando o  resultado  da integral é  um  valor  estacionário.  Na  natureza  esse  valor  estacionário  é  sempre um  mínimo.  Em outras  palavras,  os  processos  naturais  ocorrem  no  menor intervalo  de  tempo  possível, com  o  menor  uso  possível  de  energia. 

Isto  significa  dizer  que  em  todos  os  processos  naturais  a  ação  resultante  é  mínima. 

Como exemplo, tomemos  o  caminho  percorrido  pela água ao descer  de  um  ponto elevado  para  um ponto  mais  baixo. Qualquer  topógrafo  sabe  que  este caminho  é  o  mais íngreme possível  e  o  menos indicado  para  se empreitar  uma subida !  É  que devido à ação  do  campo  gravitacional  da Terra,  a água  flui  pelos  caminhos  mais  verticais  dentre todos  os  possíveis.

A  Natureza  utiliza-se  de  processos  eficientes  sem excesso de energia  nem  perda  de tempoEntender isso,  é  muito importante para  o pesquisador, qualquer que  seja  o  seu campo de conhecimento.  Pois  não apenas  na  Física,  mas na Química, Biologia, Agronomia  e   na  Agricultura, nas  ações na  Medicina  e nos  tratamentos  médicos  em geral,  na  Economia  e  nos processos  de produção,  nas  áreas  monetárias  e  financeiras, na Administração,  nas  Ciências Humanas,  enfim,  em  todos  os  campos  onde  prevaleçam  os processos  naturais  diretos  ou indiretos  ( com  a  participação  humana ), o objetivo alcançado  com  o   menor  dispêndio de tempo  e  energia,  é  a  própria  definição de  eficiência.  Podemos  não  entender todos os processos  naturais  e  muitos  dos resultados  desses  processos  podem  não  nos  ser agradáveis,  mas  a natureza  é  sábia  e  eficiente Descobrir  os  processos  onde  o Princípio da  Ação  Mínima possa  ser  aplicado  e  como aplicá-lo,  certamente  que  nos  proporcionará  melhores resultados  e esse  é  um  caminho  ao  qual  teremos  que  aprender a trilhar, se quisermos realmente  resolver  nossos  problemas  ou  mesmo  evitá-los. 

 

 

Recife,

Fevereiro/ 2005

 

J.R. Araújo

e-mail - zecaro108@yahoo.com.br

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Referências  e  Créditos

George Arfken, Mathematical Methods for Physicists - second edition, Academic Press Inc. New York, 1970

L. Landau e E. Lifchitz, Curso de Mecânica - HEMUS Livraria Editora Ltda. São Paulo

Eugene Butkov, Física Matemática - Editora Guanabara Dois S.A. Rio de Janeiro - 1978

Fotografias  de  Euler  e  Lagrange - www-groups.dcs.st-and.ac.uk

Fotografia  da  queda  d'água  - www.wimble.org

        

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